Santos, o lugar em que Muller foi mais feliz

Nos 18 anos que o Santos ficou sem ganhar um título importante (já que títulos, nesse período, ele conseguiu), o clube contou com muitos atletas que fazem o torcedor até hoje enrubescer de vergonha, mas também teve craques que trataram muito bem a bola e, por pouco, não fizeram o Alvinegro levar mais um troféu para a Vila Belmiro. Um deles, sem dúvida, foi Muller.

Muller no Santos

Equipe do Santos de 1998: Argel, Ronaldão, Zetti, Athirson, Anderson Lima e Claudiomiro; agachados: Muller, Caíco, Narciso, Lúcio e Jorginho. Foto do Fanático Santista.

Revelado pelo São Paulo, chegou ao Santos e estreou justamente contra seu ex-time, em 24 de abril de 1997. O jogo – você pode conferir os gols abaixo – marcou também por conta da reedição da dupla com Careca, parceria de sucesso no Tricolor paulista e também na seleção brasileira pela Copa de 1990. Chegaria a fazer dupla também com outro ex-são-paulino, Caio, que chegou à Vila Belmiro em julho do mesmo ano.

O atacante, que quando mais novo se caracterizava principalmente pela velocidade (dizia-se que nos treinos do São Paulo fazia os 100 metros em aproximadamente 11 segundos), mudou seu estilo conforme a idade foi avançando. No Palmeiras dos cem gols, de 1996, onde atuou com Rivaldo, Djalminha e Luisão, ele marcava gols, mas era mais um “garçom” que dava assistências precisas, com toques de primeira que desconcertavam os adversários. O típico atleta que já tinha a jogada pensada antes da pelota chegar aos pés.

Depois de sair do Palmeiras, seguiu para o Peruggia (ITA), onde não fez muito sucesso. E, de lá, veio brilhar no Santos. Foi na equipe que Muller obteve sua única Bola de Prata na carreira, prêmio concedido pela revista Placar, pelo Brasileiro de 1997. Ele fez companhia no ataque ao atacante Edmundo, artilheiro daquele campeonato, com 29 gols, e Bola de Ouro. O Alvinegro ficou em 6º lugar na primeira fase e, depois, terminou em segundo no grupo B, perdendo a vaga na final para o Palmeiras. O atacante, além das assistências, marcou nove vezes pelo clube no Brasileiro, o que lhe garantiu o topo da artilharia do time.

A excelente fase de Muller fez com que boa parte da opinião pública pedisse sua convocação para a seleção que iria tentar o penta em 1998. Mas Zagallo, após ter convocado o santista para amistosos, o deixou de fora da lista final, levando Ronaldo, Bebeto, Edmundo e Denílson. O treinador havia alegado na ocasião que o jogador disputou três Copas do Mundo e não jogou bem, e fugiu da concentração da Granja Comary, juntamente com Válber, nas Eliminatórias da Copa do Mundo, em 1993. Muller respondeu mais tarde: “Ele pode dizer o que quiser. Mas também tenho o direito de dar a minha opinião. Para mim, o Vanderlei Luxemburgo deveria ser o técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.”

Os últimos títulos antes de se aposentar foram com o Cruzeiro: a Copa do Brasil em 2000 e a Copa Sul-Minas de 2001. Jogou ainda no Corinthians, em 2001, conseguindo atuar nos quatro grandes de São Paulo. Mas onde ele foi mais feliz? Com a palavra, dada em entrevista ao Uol Esporte, o próprio Muller:

Onde você foi mais feliz?

Muller – Joguei no Santos em 1997 e no primeiro semestre de 1998 e não ganhei um título sequer, mas foi uma das melhores fases da minha carreira. Em 1998 fui considerado o craque do campeonato e ganhei o troféu pela seleção do campeonato. Foi um ano e meio de felicidade, de alegria, de prazer e de bonitos gols que marquei. Marquei minha história lá sem titulo, mas com uma passagem muito bonita.

Às vezes, jogar bem e bonito vale tanto ou mais que conquistar títulos. E isso Muller fez no Peixe.

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Serginho Chulapa e o pacto para vencer o Paulistão de 1984

Serginho Chulapa foi um dos meus primeiros ídolos no Peixe. Após ficar marcado como maior atilheiro da história do São Paulo, o atacante chegou ao Santos em 1983, sendo o artilheiro do Brasileiro daquele ano, com 22 gols. Junto como ponta-esquerda João Paulo, é quem mais marcou gols com a camisa peixeira depois da Era Pelé, com 104 tentos.

Chulapa ficou até o fim de 1984 no Alvinegro, mas teve outras três passagens pela Vila: em 1986, 1988 e 1990. Ídolo, fez o gol do título do campeonato paulista de 1984, e os bastidores dessa partida e desse campeonato estão no livro Artilheiro Indomável – As Incríveis Histórias de Serginho Chulapa (Editora Publisher Brasil), do jornalista Wladimir Miranda.

A gente sabia que não ia perder. O Castilho (ex-goleiro Carlos Castilho, já falecido, que era técnico do Santos em 84) deu a preleção dele na chácara Nicolau Moran Vilar. Eu pedi para falar com o grupo. Disse: ‘Não vamos perder este título, gente. Se eles estiverem ganhando, vamos arrumar uma confusão. Eles, durante a semana, fizeram foto de campeões. Nós vamos ser campeões. Se tiver perdendo o jogo, arrumo a confusão e todo mundo vai ter de entrar na briga’. Nosso time tinha o Márcio Rossini, Rodolfo Rodriguez, o Dema. Nosso time era problema. No braço, era problema. Saímos com essa determinação. Qualquer eventualidade, a gente ia arrumar um rolo. Foi uma voz de incentivo. O importante é que tiramos o tricampeonato do Corinthians. O título teve um sabor especial para mim. Assim que cheguei ao vestiário, tomei mais da metade de uma garrafa de uísque. Passei até mal de tanto que bebi”.

Outro ex-atleta daquele elenco, Dema, confirma na obra de Miranda o pacto proposto por Chulapa. “Ele disse que se o Corinthians estivesse ganhando, a gente ia bagunçar o jogo. Disse que ia bater em todo mundo. O Serginho era encrenqueiro. Era meio louco. Era engraçado. Ele apavorava os zagueiros. Eu via o que ele fazia e dava muita risada lá atrás. Disse para ele assim: ‘Você é o Serginho, eu estou começando a minha carreira. O que você mandar, eu faço’”.

O ex-volante lembra que não foi necessário tumultuar o jogo para o Peixe derrotar o Corinthians po 1 a 0. “Dei uma chegada no Arthurzinho e no João Paulo, e eles foram armar no meio de campo. O João Paulo, a gente já conhecia. Ele tinha jogado no Santos e nós sabíamos que colocava a bola onde queria. Então, dei uma chegada nele e pronto”.

No livro, Dema conta também que, ao contrário do que seria o normal do futebol, com os zagueiros colocando medo nos atacantes, era Chulapa quem amedrontava os defensores. E não só os defensores, como mostra uma passagem contada pelo volante santista. “Ele estava treinando cobranças de faltas. Sempre que errava o chute e a bola ia muito longe do gol, alguns torcedores que estavam vendo o treino perto do alambrado davam risada, mexiam com o Serginho. O Serginho ficou nervoso e pulou o alambrado atrás dos torcedores. Os caras, uns dez torcedores, saíram correndo. Os caras na frente e o Serginho atrás. E os outros jogadores ficavam lá, morrendo de rir.”

O lançamento do livro  Artilheiro Indomável – As Incríveis Histórias de Serginho Chulapa, será no Artilheiros Bar, rua Mourato Coelho, 1194, na segunda-feira, 12, 19h.

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A passagem de Sócrates pelo Santos

Na rica e mágica trajetória do Doutor Sócrates nos gramados está também uma passagem pelo Santos Futebol Clube. O atleta tinha voltado da Fiorentina para o Flamengo em 1986, onde havia muita expectativa com a dupla que faria com Zico. Mas ambos jogaram apenas três partidas juntos, já que sofreram com contusões. O camisa 8, em 1987, acabou se desligando do clube rumo, supostamente, a uma aposentadoria.

Mas em 1988, após aproximadamente um ano fora dos gramados, ele retornou. O anúncio da sua contratação pelo Santos foi feita com pompa e circunstância no Ilha Porchat Clube, em São Vicente. Veja no vídeo abaixo como a torcida alvinegra saudou o atleta de 34 anos em sua apresentação.

A estreia do craque foi em um amistoso contra o Cerro uruguaio. Vitória peixeira por 4 a 2, com gol de Sócrates, de cabeça. Jogou 75 minutos e, por pouco, não fez um gol de placa em uma jogada de arranque, jogada, aliás, pouco usual. O lance está no 3:23 do vídeo. Magrão deu um drible da vaca, um drible de corpo, fintou, passou uma bola por baixo das pernas do adversário e tocou por cobertura. Mas a redonda, indócil, teimou em passar por cima da meta. Abaixo, a pintura do Doutor:

A jornada de Sócrates na Vila Belmiro durou um ano. O clube, castigado por más administrações sucessivas, estava em crise financeira e passou por situações pelas quais jamais deveria ter passado como, em uma excursão realizada no Chile, a delegação fugir de um hotel sem pagar a conta. Como lembra o Blog do Prof. Guilherme, depois de uma excursão feita na Ásia, que durou 20 dias em agosto de 1989, o time estava exausto. Mesmo assim, atrás de mais dinheiro, dirigentes resolveram prolongar a viagem indo para a América do Norte. O Doutor cobrava (com toda razão) os 2 mil dólares por partida a que tinha direito, e que o Santos lhe devia desde os amistosos no Chile (quando ocorreu o episódio do hotel), realizados em fevereiro. Sem receber, Sócrates rescindiu o seu contrato e voltou ao Brasil.

Veja abaixo o Magrão marcando na vitória santista contra o São Paulo, pelo Paulistão de 1989.

Descanse em paz, Doutor, que, como cidadão que sempre foi, fará falta muita falta. Mesmo corintiano, Sócrates amava o bom futebol e lembro de uma participação sua no Cartão Verde (aliás, lembro de várias), em 2010, quando um atleta do Santo André estava no programa. Àquela altura, a única derrota em casa do time do ABC havia sido para o Santos, ocasião em que Neymar fez um dos seus mais belos gols. E Magrão disparou: “Mas perder para o Santos não é derrota, é oferenda”. Esse era o Magrão.

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Marcelinho Paraíba jogou no Santos. Você lembra?

Não são todos os torcedores que lembram, mas o meia-atacante Marcelinho Paraíba, que participou da vitoriosa campanha do Sport na Série B de 2011, passou pelo Santos em 1994. Vindo do Paraguaçuense, Marcelo dos Santos chegou à Vila Belmiro junto com o então zagueiro e depois volante Narciso, ambos com direitos federativos pertencentes ao Corinthians-AL. O atleta tinha 19 anos e vinha para disputar o Brasileirão pelo time da Vila.

Seus companheiros de meio de campo eram Ranielli, Giovanni, Marcelo Passos, Neto (hoje comentarista da Band) e Paulinho Kobayashi. Não teve muitas chances e no final do ano foi emprestado para o Rio Branco. Ele mesmo lembra desta história em entrevista ao portal G1:

Alguns dos meias do elenco do Santos para o Brasileiro de 1994 (Fonte: Acervo Santista)

Você se destacou no Campinense, foi bicampeão paraibano, seguiu para a Segunda Divisão do Paulista, pelo Paraguaçuense, e se destacou. Ganhou sua primeira grande chance em um time de ponta, o Santos, em 1994. Mas jogou pouco, apenas sete partidas, e foi negociado com o Rio Branco. O que houve na Vila Belmiro, que você não foi aproveitado?

Era muito jovem. No Paraguaçuense, fiz 11 gols, fui o melhor jogador da equipe e acabei emprestado ao Santos, junto com o volante Narciso. Tive dificuldade por ser inexperiente e nordestino. Há 20 anos, os nordestinos sofriam uma barreira nos clubes do Sudeste e do Sul. Fiquei meio escanteado, quase não jogava. Foi bom porque, pelos menos, as poucas vezes que entrei, consegui aparecer para o Rio Branco me contratar, aí lá, sim, as coisas andaram.
No Santos, a camisa pesou por estar num clube grande?

Eu precisava de um período de adaptação, mas a camisa não pesou. Admito que fiquei admirado em entrar no vestiário que Pelé , Coutinho e tantos outros estiveram, foi emocionante

Embora não admita, parece que a camisa de fato pesou. Mas, mesmo sem uma passagem marcante, Marcelinho pode incluir no seu currículo a honra de ter vestido o manto alvinegro.

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Chile, Estádio Nacional e o dia em que o Santos goleou Pinochet

Era 11 de setembro de 1973. O governo da coalizão de esquerda Unidade Popular era deposto por um golpe militar comandado pelo general Augusto Pinochet, comandante-chefe das Forças Armadas do país, nomeado 18 dias antes. O presidente Salvador Allende se suicida após a invasão do Palácio de La Moneda. Começava ali um dos períodos mais obscuros da história chilena, uma ditadura militar que duraria até 1990.

Entre o fatídico dia do golpe até 7 de novembro daquele ano, estima-se entre 12 e 40 mil os presos políticos detidos no Estádio Nacional de Santiago (a Cruz Vermelha calculou sete mil em apenas um dia). Inaugurado em 1938, seu projeto arquitetônico era baseado no Estádio de Berlim, construído por Hitler para as Olimpíadas de 1936. O espírito autoritário e sangrento parecia também ter sido transposto de um para o outro.

Em meio à repressão, as seleções do Chile e da União Soviética disputavam a repescagem para tentar uma vaga à Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. À época, o terceiro colocado das eliminatórias sul-americanas enfrentava uma seleção europeia e no dia 26 de setembro de 1973, no estádio Lênin, na capital Moscou, os dois times empataram em zero a zero. Os chilenos não puderam acompanhar a peleja. Nada mais previsível, posto que uma eventual vitória dos comunistas soviéticos poderia causar um enorme mal-estar à população que acabara de se livrar do “perigo vermelho”. Não há qualquer registro audiovisual desse jogo no Chile.

Para a partida de volta em Santiago, uma comissão da Fifa foi averiguar as condições do Estádio Nacional, centro de torturas do regime de Pinochet. Misteriosamente, a entidade presidida por Stanley Rous se reuniu com o ministro da Defesa e não encontrou qualquer óbice à realização do confronto. No entanto, os soviéticos se recusaram a disputar o jogo em um estádio que, segundo eles, estava “salpicado com o sangue dos patriotas chilenos”. A Fifa tentou fazer com que o time da casa mudasse o local do encontro, mas não houve acordo. Os soviéticos se recusaram a enfrentar o Chile.

E o Santos estragou a festa de Pinochet

Obviamente, como em toda ditadura que se preze, era necessário um jogo de futebol de fato para ratificar o “feito” da classificação à Copa. O time escolhido foi o Santos Futebol Clube, que assombrara o mundo na década de 60 com a maior esquadra de boleiros de todos os tempos. Do lado de cá, recusar um convite desses poderia trazer muitos problemas ao clube, já que o presidente Médici, o mais sanguinário do período autoritário, era aliado de Pinochet.

O ditador das Cordilheiras pretendia homenagear Pelé para completar a “festa”. Mas o Rei não entrou em campo, sob alegação de contusão. Não se sabe se real ou fictícia, mas era uma forma de burlar sutilmente o circo pinochetista. E, diante de 25 mil espectadores, a equipe de branco entrou em campo para enfrentar os chilenos.

Se em 1936 Jesse Owens calou Hitler e sua tese de superioridade ariana no Estádio de Berlim, na “réplica” chilena o Santos humilhou a seleção roja. Um rotundo 5 a 0, com dois gols de Nenê Belarmino (hoje técnico), dois de Eusébio e outro do magnífico Jonas Eduardo Américo, vulgo Edu.

A ida da seleção para a Copa não podia ser marcada por uma goleada daquela monta e, por conta disso, houve realização de um dos “jogos” mais patéticos da história do futebol. Em 23 de novembro, a seleção chilena entrou em campo para enfrentar a União Soviética. Ou melhor, para enfrentar o nada. Depois de uma troca de 13 passes em menos de 30 segundos, a equipe da casa marcou o gol da vitória. Festejos, músicas patrióticas e quetais coroaram o espetáculo grotesco.

Axel Pickett, jornalista e autor do livro El Partido de los Valientes, explica a farsa armada pelos cartolas, já que o Chile havia ganho por W.O. – pelo regulamento, 2 a 0 – e aquilo não se tratava de uma partida oficial. “A entrada em campo foi um carnaval feito pelos dirigentes para dizer que os comunistas tinham medo de vir jogar com nossa gente”, recorda.

Na Copa da Alemanha, o Chile não ganhou de ninguém. Uma derrota para a Alemanha Ocidental por 1 a 0, um empate em 1 a 1 com a Alemanha Oriental e outro com a Austrália por 0 a 0. Desde então, a seleção participou das Copas de 1982 e 1998, sem obter uma única vitória, e só voltou a encontrar os três pontos numa partida de Copa no Mundial de 2010, já sob a presidência de uma socialista que se opôs ao regime militar da época. Talvez não seja só coincidência.

Documentário sobre o Estádio Nacional e a ditadura chilena

http://www.youtube.com/watch?v=s36pvia0VY0&feature=related

Alguns dos links que fundamentaram o post:

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Tricampeão – o Santos continua fazendo história

Poderia ter ido ao Pacaembu, ver junto de amigos queridos e de outros tantos desconhecidos que se tornam amigos num momento mágico como o de noite de ontem, a final da Libertadores. Mas, por questões logísticas teria que abrir mão de assistir à decisão com a pessoa que despertou meu interesse pela história do glorioso Alvinegro Praiano, assim como não poderia contar com outros familiares que sofreram e se alegraram comigo durante anos em estádios, diante da TV ou mesmo do lado de um rádio, em tempos idos.
Gostem ou não, ele é fora de série
Não é todo dia que se tem a oportunidade de saber, de antemão, que em determinado dia e horário a história será escrita. E, por conta disso, a minha opção não poderia ser outra. Estava ali, a menos de quatro quilômetros do Paulo Machado de Carvalho, sofrendo a ansiedade que já vinha de dias anteriores, que me fez acordar antes das quatro da manhã de ontem, que dominava o pensamento em cada minuto da quarta-feira.
 E a ansiedade se somava ao nervosismo após ao apito inicial. O dito renascido futebol uruguaio mostrava toda sua ênfase na defesa, com um time que não conseguia sequer finalizar ao gol rival. O lance solitário (que não levou perigo) do Peñarol na primeira etapa surgiu de sua estrela, Martinuccio. O emia, aliás, foi dominado pela marcação de um jogador limitado tecnicamente, mas que parecia ter sido preparado para um jogo de paciência de 180 minutos, onde não lhe era dado o direito de se desconcentrar por um segundo sequer. Mas, além da concentração absoluta, Adriano partilhava com seus companheiros aquele algo mais, a obstinação que passa confiança ao torcedor, o toque de raça que é típico de campeões.
Danilo, quatro gols na Libertadores: o menino cresceu
As chances alvinegras apareciam. Com Durval, de cabeça; nos pés de Elano, em duas bolas rebatidas por Sosa; e com Léo, que com o pé direito mandou pra fora a melhor oportunidade peixeira na etapa inicial. Mas o gol só viria no segundo tempo, em lance lapidar. Ganso deu o toque de letra para Arouca, quase que indicando para o volante santista “vai por ali”. Ele escapou de uma falta, escapou de duas,e deu o passe para Neymar. O atacante não dominou para driblar, finalizou de primeira, e a bola fez talvez a única trajetória possível para morrer nas redes: passou rente ao pé do defensor uruguaio, entre a trave o goleiro. Chute forte, com efeito, rasteiro. De goleador, de um fora de série.
Curioso que muitos “desculpem” Mano Menezes pela seleção não poder contar com Ganso, mas não tem a mesma parcimônia com Muricy Ramalho. Com o Dez de volta, e mais Léo, o treinador pôde armar um esquema que tinha uma saída de bola com mais qualidade, com uma fluência melhor na transição da defesa para o ataque, permitindo que o talento de quem tem talento pudesse aparecer. E apareceu.
Coube a Neymar iniciar de novo a jogada do segundo tento. Ele recebeu pela esquerda, soube segurar a bola e inverter o jogo, fazendo a redonda chegar a Elano, que acionou a Danilo. O lateral limpou e finalizou com a perna que “não é a boa”, a canhota. E marcou seu quarto gol na Libertadores. Outros gols poderiam ter surgido, mas Zé Love, o inacreditável, perdeu oportunidades mais que douradas.
O craque e o líder
No fim, um gol uruguaio quase obra do acaso, um tento contra de Durval, um dos pontos de apoio do time no torneio. Mas o Peñarol, que abdicou de jogar futebol durante quase toda a partida (por vocação e opção), não tinha forças para ser o Once Caldas de 2004 redivivo. E, diga-se, o sofrimento para o torcedor veio por ser uma decisão, não por qualquer “opção defensivista do comandante. Aqui tem trabalho, mas ontem o que teve mesmo foi futebol, meu filho!
- Esperei 48 anos por isso, você esperou menos – disse meu pai, depois dos 90 minutos.

É verdade, não esperei tanto. Mas esperei 18 anos pra ver meu time campeão em 2002 e, desde então, poucos times daqui chegaram a tantos títulos: quatro Paulistas, dois Brasileiros, uma Copa do Brasil e uma Libertadores. O improvável grande que nasceu do município de 500 mil habitantes consolida o seu retorno ao topo, agora como rei da América. O que me fez lembrar o poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
No futebol, no dia de ontem e sempre, o Tejo foi e será o rio que corre pela minha aldeia.

Fotos do http://www.flickr.com/photos/santosfc/.

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Paulinho McLaren, ídolo nos tempos de vacas magras

O Brasileirão de 1991 foi disputado no primeiro semestre, terminando em 9 de junho com o São Paulo como campeão e o Bragantino como vice. Foram 20 clubes jogando em apenas um turno, classificando-se os 4 melhores. O Santos terminou em sétimo lugar, a cinco do quarto colocado, o Atlético-MG (à época, a vitória valia dois pontos).

O Alvinegro não foi campeão, mas obteve uma marca que não conseguia desde 1983: teve o artilheiro do campeonato. O centroavante Paulinho McLaren marcou 15 vezes naquela competição, com algumas grandes atuações. Contra o Botafogo, por exemplo, em pleno Maracanã fez um hat-trick na vitória santista por 3 a 0. Sobre essa partida, o artilheiro conta aqui: “Houve um momento daquele Campeonato Brasileiro em que o Túlio Maravilha estava com seis gols e eu com apenas três. Então jogamos na reabertura do estádio do Maracanã, que tinha ficado fechado para reformas. No jogo contra o Botafogo, equipe do Túlio, fiz três gols e o Santos ganhou por 3 a 0. Foi aí que assumi a ponta da artilharia para não largar mais”. Ele também fez os dois gols do triunfo do time do treinador Cabralzinho diante do São Paulo, no Morumbi.

Paulo César Vieira Rosa, nascido em Igaraçu do Tietê, em 1963, tinha 1,76 de altura, mas mesmo assim era exímio cabeceador. Não fazia as vezes de centroavante fixo, saía da área e também tinha grande velocidade. No mesmo ano em que se tornou artilheiro do Brasileiro, na Fórmula-1, Ayrton Senna foi campeão mundial pela primeira vez. Ao homenagear o piloto após marcar um gol, consolidou o apelido de Paulinho McLaren, alusão à equipe de Senna.

Em um período de vacas magras para o santista, ter um goleador na equipe era fundamental para a torcida. Entre 1989 e 1992, tempo em que jogou na Vila, Paulinho fez 55 gols e é hoje o 44º artilheiro da história do clube e o 14º pós-era Pelé. O atacante foi convocado para a seleção brasileira principal pelo interino Ernesto Paulo, para a partida de 11 de setembro de 1991, contra o País de Gales. O Brasil perdeu por 1 a 0, mas Paulinho não chegou a entrar em campo.

A partida inesquecível, pelo menos pra mim, do artilheiro, foi o empate em 3 a 3 com o Vasco, no Maracanã, em jogo válido pelo Brasileiro de 1992. O Peixe disputava um quadrangular que definiria um dos finalistas da competição daquele ano e, naquele jogo, Bebeto e Paulinho fizeram três gols cada. O terceiro do santista foi antológico, com um passe de peito do atacante Guga e um incrível sem pulo. O Santos jogou com Sérgio, Dinho, Luís Carlos (depois Guga), Pedro Paulo e Flavinho; Bernardo, Axel, Ranielli (depois Serginho Fraldinha); Almir, Paulinho McLaren e Cilinho. O treinador era Geninho. Confira os gols abaixo e mate a saudade de dois grandes goleadores.

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Há 52 anos, o Santos vencia pela primeira vez o Rio-São Paulo

Hoje faz 52 anos que o Santos venceu pela primeira vez uma edição do Torneio Rio-São Paulo, no ano de 1959. Naquela ocasião, a competição teve dez participantes. Além do Peixe, Palmeiras, São Paulo, Corinthians, Portuguesa, Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo e América-RJ disputaram em turno único o título.

A estreia santista foi contra o Botafogo, no Rio de Janeiro, uma vitória por 4 a 2. Na última rodada, outro confronto com um time do Rio valeu a taça. O Alvinegro enfrentou o Vasco, que tinha 12 pontos, um a mais que o Peixe (à época, a vitória valia dois pontos), e precisava da vitória para conseguir um título inédito.

O Vasco tinha o goleiro Barbosa, considerado por muito tempo um dos culpados pela derrota brasileira na Copa de 1950. No vídeo abaixo, pode-se ver que, mesmo aos 38 anos, o arqueiro ainda fazia defesas importantes, mostrando segurança nas bolas aéreas e também quando se deparava diante de artilheiros natos. O Vasco era campeão do Rio-São Paulo e do campeonato estadual de 1958, este um dos mais equilibrados da história. Como três equipes terminaram empatadas, foram precisos dois triangulares para definir o campeão. Os vascaínos chamam o título daquele ano de super-super campeonato.

Mas o Santos também tinha tido um belo ano em 1958, conquistando o título paulista (Pelé foi o artilheiro da competição com incríveis 58 gols) e com três representantes na seleção campeão do mundo daquele ano: o próprio Pelé, Zito e Pepe. Em 1959, o esquadrão santista contava com o veterano Jair Rosa Pinto, que, aos 38 anos, comandava garotos como Coutinho, que só completaria 16 anos pouco menos de um mês depois daquela decisão.

A partida foi disputada no Pacaembu, com um público estimado de 21 mil pagantes. O primeiro tempo terminou 0 a 0 e foi só no segundo que o garoto Coutinho abriu o placar para a equipe peixeira. Pelé faria o segundo e Coutinho fecharia a vitória santista. Era o primeiro Rio-São Paulo conquistado pelo Santos, que é, junto com Corinthians e Palmeiras, o clube que mais vezes levantou a taça, cinco vezes.

E, claro, vale ver o vídeo abaixo:

Ficha técnica

Santos 3 X 0 Vasco Data: 17/05/1959
Local: Pacaembu
Árbitro: Frederico Lopes
Renda: Cr$ 905.695,00
Público estimado: 21.000 pagantes
Santos - Laercio, Getúlio, Mourão, Ramiro, Álvaro, Zito (Fiote), 
Dorval, Jair, Coutinho, Pelé e Pepe
Técnico: Lula
Vasco - Barbosa, Viana, Coronel, Dario, Russo, Laerte, Sabará, 
Robson, Zé Henrique (Cabrita), Rubens e Roberto Peniche (Osvaldo)
Técnico : Gradim
Gols: Coutinho (2) e Pelé

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No século XXI, Santos levou a melhor em todas as partidas eliminatórias contra o São Paulo

A semifinal disputada entre Santos e São Paulo no último sábado foi o quarto confronto eliminatório entre as os dois clubes no século XXI. Em todas as ocasiões, o Peixe levou a melhor. No total, foram sete jogos, com cinco vitórias santistas e dois empates. Em duelos disputados a partir de 2001, foram 18 vitórias alvinegras, 5 empates e 12 derrotas. Confira abaixo as partidas de mata-mata neste século:

Brasileirão de 2002

O São Paulo terminou a fase inicial do campeonato no primeiro lugar e enfrentou o Santos, oitavo colocado. A equipe que tinha Ricardinho, Kaká, Reinaldo e Luís Fabiano, sob o comando de Oswaldo de Oliveira, já havia sido apelidada de “Real Madrid” do Morumbi por conta desse quarteto. Do outro lado, o Peixe tinha Diego e Robinho, em ascensão, um até então desconhecido Alberto na frente e Elano, que fazia as vezes de falso ponta no esquadrão de Emerson Leão.

Na primeira partida, na Vila Belmiro, 3 a 1 para o Alvinegro. Durante a semana que antecedeu o segundo jogo, nem a imprensa esportiva, tampouco algumas das principais figuras do clube paulistano, como Rogério Ceni e Ricardinho, acreditavam que o Santos mantivesse a vantagem. A receita era clara para os “especialistas”: se o Tricolor fizesse um gol logo no início do jogo, os meninos se enervariam e a vitória por dois gols de diferença, que classificaria os sãopaulinos, viria naturalmente.

Luís Fabiano marcou logo nos primeiros minutos, mas o Peixe não esmoreceu. Léo empatou a peleja e no final Diego deixou Ceni de joelhos e marcou o gol da vitória. Estava aberto o caminho do Santos para sair da fila e conquistar o Brasileiro de 2002.

Copa Sul-americana de 2004

O técnico campeão brasileiro de 2002, Emerson Leão, estava à frente da equipe do Morumbi no segundo semestre de 2004. Vanderlei Luxemburgo treinava o Santos e priorizava o campeonato brasileiro, onde a disputa com o Atlético-PR era cabeça a cabeça. Por conta disso, na primeira partida, na Vila Belmiro, o time da casa entrou com os reservas. Mesmo enfrentando os titulares tricolores, o Santos venceu por 1 a 0 com gol de Elano, que entrou aos 25 minutos do segundo tempo. Na ocasião, o Peixe atuou com Mauro, Leonardo, André Luís e Ávalos (Ricardinho); Paulo César, Fabinho, Bóvio, Preto Casagrande e Márcio (Léo 29 do 2.º); Marcinho e William (Elano). O São Paulo veio com Rogério Ceni, Alex Bruno, Lugano e Rodrigo; Cicinho, Alê (Gabriel), Renan, Danilo e Júnior (Souza); Nildo (Diego Tardelli) e Grafite.

Na partida a volta, no Morumbi, o empate em 1 a 1 assegurou a vaga para o Peixe. Rodrigo marcou para o São Paulo e Preto Casagrande fez o tento santista.

Campeonato Paulista de 2010

O Santos era o time-sensação do primeiro semestre mas, mais uma vez, parte da mídia esportiva e dos torcedores adversários colocavam em dúvida o desempenho do clube alvinegro, que poderia amarelar em uma semifinal. Como em 2002, os garotos não tremeram. O <a href="”>Santos venceu o São Paulo, no jogo de ida, no Morumbi, por 3 a 2, gol contra de Júnior César, André e Durval.

Na volta, na Vila Belmiro, um passeio: o <a href="”>Alvinegro venceu por 3 a 0, Neymar, por duas vezes, e Madson marcaram para o time da Vila. Ao final da disputa, o <a href="” target=”_blank”>zagueiro Alex Silva desabafou: “O Santos engoliu a gente. Não jogamos nada, não merecemos a vitória. Deixamos eles criarem, principalmente pelas laterais.” Em 2010, os dois times jogaram cinco vezes, e o Santos venceu quatro e perdeu uma.


Campeonato Paulista 2011

Mais um capítulo da “freguesia” sãopaulina diante do Santos em partidas eliminatórias foi escrita no sábado. Leia mais aqui e veja o vídeo abaixo.

Confira a lista de jogos entre os dois desde 2001 aqui.

Ao longo da história, os dois times se enfrentaram 266 vezes, com 91 vitórias alvinegras, 62 empates e 113 derrotas. O que muitos não levam em conta quando veem os números dos confrontos diretos entre o Peixe e os rivais do trio de ferro é que, além da natural força política dos clubes da capital, mais notória na primeira metade do século XX e antes do profissionalismo, o Santos jogou fora dos seus domínios muito mais vezes do que seus adversários. No caso do San-São, por exemplo, menos de um terço dos jogos foram realizados na Vila Belmiro: 88 no total, com 44 vitórias peixeiras, 18 empates e 26 derrotas. Se o Alvinegro tivesse tido direito a atuar pelo menos metade dos duelos contra o São Paulo na Vila Belmiro, talvez a história fosse bem diferente…

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Santos, literalmente razão de existir

No dia 14 de abril, o Santos faz 97 anos. Nas palavras de José Roberto Torero, o único time de bairro do mundo que é campeão mundial. De fato, para um clube que não é de capital, nem de província, estado ou país, encantar o mundo torna-se uma tarefa ainda mais significativa. Foi eleito o melhor do século passado nas Américas (o que equivale a dizer, o maior da História o continente) e o terceiro maior do mundo, mesmo diante de uma votação eurocêntrica.

Para celebrar essa data, não falo aqui sobre as glórias (talvez incontáveis) do primeiro ataque que fez cem gols no futebol paulista, do pentacampeão da Taça Brasil ou de um dos maiores jogos que um time já fez no ludopédio mundial. Mas digo que, na minha história pessoal, o amor pelo Santos precede a minha existência e é também responsável em parte por eu existir.

Meu avô materno é natural de Pouso Alegre, sul de Minas Gerais. Tinha uma vida razoavelmente estabilizada lá, mas começou a sentir-se mal em determinadas situações. Foi diagnosticada hipertensão e, à época, o tratamento não consistia na ingestão de remédios que hoje controlam o mal. Era à base de dieta e recomendava-se que o doente vivesse a nível do mar para minorar o problema (hoje se sabe que isso é um mito).

Para onde ir? Espírito Santo, Rio de Janeiro ou São Paulo? Digamos que um fator pesou na decisão de meu avô para levar a família a São Vicente na década de 40. Seo Benedito Faria era torcedor fanático do Santos, fã de Antoninho Fernandes, o “arquiteto” que jamais foi campeão como jogador pelo Alvinegro. Daí, a chance de ficar perto do clube do coração foi cabal para a mudança de endereço.

Graças à decisão do meu avô, minha mãe pode conhecer meu pai, duplamente santista, de nascimento e de coração. Por isso, pra mim, não é exagero de torcedor apaixonado dizer que devo minha vida ao Santos. Obrigado e parabéns, Peixe!

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