Os 50 anos do primeiro Mundial do Santos

Eram 19 horas em Brasília, 22 em Lisboa. Na época, a disputa pelo Mundial se fazia em melhor de três pelejas, e o Santos, campeão da Libertadores de 1962, já havia vencido a primeira no Maracanã, por 3 a 2. Contudo, a parada em Portugal tendia a ser mais dura.

Já estavam sendo vendidos os ingressos para a terceira partida, pois os lusitanos davam como favas contadas a vitória no Estádio da Luz. Não era à toa, já que o Benfica era bicampeão europeu. Tinha conquistado seu primeiro título na Liga em 1961-1962, batendo o Barcelona de Czibor e Kocsis, dois dos húngaros protagonistas da épica seleção de 1954. No ano seguinte, os benfiquenses bateram outro gigante, o Real Madrid, de Di Stéfano e Puskas, em uma fantástica final, por 5 a 3. Seriam ainda vice-campeões no ano seguinte, contra o Milan.

Sim, aquela era uma das maiores formações de um time europeu na História. Jogadores como o “Pantera Negra” Eusébio, Simões e José Augusto estariam quatro anos depois na seleção portuguesa que ficou em terceiro lugar no Mundial da Inglaterra, em 1966.

Era uma noite de marcas. No Brasil, como conta Odir Cunha em Time dos Sonhos, o Ministério da Justiça autorizou a mudança do horário de A Voz do Brasil para que a partida fosse transmitida. Três semanas antes todos os 73 mil ingressos já tinham sido vendidos, um recorde de público e renda em Portugal.

E se o campeão europeu esperava uma equipe recuada, jogando só em contra-ataques, se enganou redondamente. O treinador Lula colocou Olavo na lateral-direita, trocando Mengálvio, contundido, por Lima no meio de campo. O time ganhou ainda mais velocidade, e estava pronto para fazer o que muitos consideram a maior partida de sua centenária história.

É assim que o maior ponta artilheiro do Brasil (e possivelmente do mundo), Pepe, se recorda daquela dia, conforme reportagem aqui. “A nossa única preocupação foi com o gramado. Os portugueses o deixaram em péssimo estado para termos dificuldade de tocar a bola, driblar, tudo o que mais fazíamos. De nada adiantou! Abrimos o 4 a 0, e poderíamos jogar eternamente que jamais perderíamos o jogo.”

Pepe ainda comenta sobre o “gol feio” que fez na peleja. “A partida estava gostosa para o Santos, e ainda sobrou espaço para o gol mais feio da minha carreira, confesso. Eu tabelei com o Coutinho, o campo estava molhado e a bola correu muito. O Costa Pereira mergulhou na bola e foi escorregando em minha direção. Ela sobrou no meu pé, na marca do pênalti, sem ninguém no gol. Eu só empurrei a bola para dentro, foi feio”, lembra. “Com o 5 a 0 a torcida já aplaudia de pé o Santos. Só tomamos os dois gols por não fazer falta. Se precisasse, não sofreríamos nenhum.”

Mas se o ponta fez um gol que ele considera “feio”, Coutinho fez um belo tento no primeiro jogo, disputado no Maracanã (ele também fez o seu em Lisboa), que ficou na memória de José Miguel Wisnik, como conta nesse texto. “A bola foi lançada pelo alto, vinda da intermediária pelo lado direito, caindo sobre o bico esquerdo da pequena área, onde estava Coutinho. Ele matou de efeito, sem deixá-la cair no chão, aproveitando tanto o impulso natural da bola quanto o seu desenho em curva para dar um chapéu de fora para dentro num primeiro zagueiro, e, em seguida, um outro chapéu simétrico num segundo zagueiro, antes de concluir, sem que a bola tocasse o chão”, recorda. “Li num jornal, dois dias depois do jogo, que, ao embarcar de volta para Portugal, um dirigente do Benfica declarou sobre o gol, numa autêntica chave de ouro camoniana, que valera a pena atravessar o oceano, só para sofrê-lo.”

Os 5 a 2 daquela noite mostravam a superioridade de uma equipe que jogava coletivamente, mas que tinha talentos individuais incontestes. Não foi conquistada como muitos títulos o são hoje em dia, com ênfase na defesa, na base da retranca, com um gol de contra-ataque achado. Foi uma aula, reconhecida pelos próprios derrotados como conta, novamente, Odir Cunha em seu Donos da Terra.

 

 

“Um espetáculo. Foi uma noite excepcional do futebol. Mesmo perdendo por 5 a 2, nós não nos sentimos derrotados. Saí de campo com uma impressão diferente do que era futebol. O Santos era superior porque tinha jogadores excepcionais. O Santos tinha um time maravilhoso”, disse o ponta-direita José Augusto. Simões, seu companheiro de Benfica e seleção portuguesa, concordou. “É muito difícil encontrar tanto craque, tanto jogador inteligente como naquele time. Eu comparo o Santos de 62 com a Seleção do Brasil de 70. Considero as duas as melhores equipes de futebol que eu vi até hoje. A Seleção de 70 é a confirmação de um modelo de jogo que o Santos já vinha demonstrando há muito tempo.”

É esse futebol encantador, que viajou o mundo e impressionou a tantos, que se tornou um legado para o Brasil. E, 50 anos depois, muitos ainda sonham com lances e jogadas que não puderam acompanhar ao vivo, esperando que um dia possam ver com outros personagens, resgatando um tempo em que, mesmo em meio a gigantes, impressionávamos pela nossa grandeza.

Benfica 2 X 5 Santos
Data: 11 de outubro de 1962 (quinta-feira).
Local: Estádio da Luz, Lisboa.
Árbitro: Pierre Schinter (França), auxiliado por Steiner e Boalilou.
Público: Cerca de 80 mil pessoas, com 73 mil pagantes.
Renda: 2,5 milhões de escudos.
Benfica – Costa Pereira; Humberto, Raul e Cruz; Caven e Jacinto; José Augusto, Santana, Eusébio, Coluna e Simões. Técnico: Fernando Riera.
Santos – Gilmar; Olavo, Mauro e Dalmo; Zito e Calvet; Dorval, Lima, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Luís Alonso Peres (Lula).
Gols: Pelé, aos 17 e 26 minutos do primeiro tempo; Coutinho, aos 3, Pelé, aos 19, Pepe aos 31, Eusébio, aos 41, e Simões aos 44 minutos do segundo tempo.

1 comentário

outubro 11, 2012 · 8:50 am

Uma resposta para “Os 50 anos do primeiro Mundial do Santos

  1. Pingback: 5 curiosidades sobre Santos e Benfica | Filho de Peixe

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