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Chile, Estádio Nacional e o dia em que o Santos goleou Pinochet

Era 11 de setembro de 1973. O governo da coalizão de esquerda Unidade Popular era deposto por um golpe militar comandado pelo general Augusto Pinochet, comandante-chefe das Forças Armadas do país, nomeado 18 dias antes. O presidente Salvador Allende se suicida após a invasão do Palácio de La Moneda. Começava ali um dos períodos mais obscuros da história chilena, uma ditadura militar que duraria até 1990.

Entre o fatídico dia do golpe até 7 de novembro daquele ano, estima-se entre 12 e 40 mil os presos políticos detidos no Estádio Nacional de Santiago (a Cruz Vermelha calculou sete mil em apenas um dia). Inaugurado em 1938, seu projeto arquitetônico era baseado no Estádio de Berlim, construído por Hitler para as Olimpíadas de 1936. O espírito autoritário e sangrento parecia também ter sido transposto de um para o outro.

Em meio à repressão, as seleções do Chile e da União Soviética disputavam a repescagem para tentar uma vaga à Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. À época, o terceiro colocado das eliminatórias sul-americanas enfrentava uma seleção europeia e no dia 26 de setembro de 1973, no estádio Lênin, na capital Moscou, os dois times empataram em zero a zero. Os chilenos não puderam acompanhar a peleja. Nada mais previsível, posto que uma eventual vitória dos comunistas soviéticos poderia causar um enorme mal-estar à população que acabara de se livrar do “perigo vermelho”. Não há qualquer registro audiovisual desse jogo no Chile.

Para a partida de volta em Santiago, uma comissão da Fifa foi averiguar as condições do Estádio Nacional, centro de torturas do regime de Pinochet. Misteriosamente, a entidade presidida por Stanley Rous se reuniu com o ministro da Defesa e não encontrou qualquer óbice à realização do confronto. No entanto, os soviéticos se recusaram a disputar o jogo em um estádio que, segundo eles, estava “salpicado com o sangue dos patriotas chilenos”. A Fifa tentou fazer com que o time da casa mudasse o local do encontro, mas não houve acordo. Os soviéticos se recusaram a enfrentar o Chile.

E o Santos estragou a festa de Pinochet

Obviamente, como em toda ditadura que se preze, era necessário um jogo de futebol de fato para ratificar o “feito” da classificação à Copa. O time escolhido foi o Santos Futebol Clube, que assombrara o mundo na década de 60 com a maior esquadra de boleiros de todos os tempos. Do lado de cá, recusar um convite desses poderia trazer muitos problemas ao clube, já que o presidente Médici, o mais sanguinário do período autoritário, era aliado de Pinochet.

O ditador das Cordilheiras pretendia homenagear Pelé para completar a “festa”. Mas o Rei não entrou em campo, sob alegação de contusão. Não se sabe se real ou fictícia, mas era uma forma de burlar sutilmente o circo pinochetista. E, diante de 25 mil espectadores, a equipe de branco entrou em campo para enfrentar os chilenos.

Se em 1936 Jesse Owens calou Hitler e sua tese de superioridade ariana no Estádio de Berlim, na “réplica” chilena o Santos humilhou a seleção roja. Um rotundo 5 a 0, com dois gols de Nenê Belarmino (hoje técnico), dois de Eusébio e outro do magnífico Jonas Eduardo Américo, vulgo Edu.

A ida da seleção para a Copa não podia ser marcada por uma goleada daquela monta e, por conta disso, houve realização de um dos “jogos” mais patéticos da história do futebol. Em 23 de novembro, a seleção chilena entrou em campo para enfrentar a União Soviética. Ou melhor, para enfrentar o nada. Depois de uma troca de 13 passes em menos de 30 segundos, a equipe da casa marcou o gol da vitória. Festejos, músicas patrióticas e quetais coroaram o espetáculo grotesco.

Axel Pickett, jornalista e autor do livro El Partido de los Valientes, explica a farsa armada pelos cartolas, já que o Chile havia ganho por W.O. – pelo regulamento, 2 a 0 – e aquilo não se tratava de uma partida oficial. “A entrada em campo foi um carnaval feito pelos dirigentes para dizer que os comunistas tinham medo de vir jogar com nossa gente”, recorda.

Na Copa da Alemanha, o Chile não ganhou de ninguém. Uma derrota para a Alemanha Ocidental por 1 a 0, um empate em 1 a 1 com a Alemanha Oriental e outro com a Austrália por 0 a 0. Desde então, a seleção participou das Copas de 1982 e 1998, sem obter uma única vitória, e só voltou a encontrar os três pontos numa partida de Copa no Mundial de 2010, já sob a presidência de uma socialista que se opôs ao regime militar da época. Talvez não seja só coincidência.

Documentário sobre o Estádio Nacional e a ditadura chilena

http://www.youtube.com/watch?v=s36pvia0VY0&feature=related

Alguns dos links que fundamentaram o post:

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O maior ponta artilheiro do Brasil

“Sou o maior atilheiro da história do Santos. O Pelé não conta, ele não é humano”. É assim que José Macia, o Pepe, gosta de se referir ao fato de ter marcado 405 gols com a camisa 11 do time da Vila Belmiro, o que o deixa atrás apenas do Rei na lista de maiores goleadores do clube. No entanto, se a comparação com Pelé é ingrata para qualquer atleta, o Canhão da Vila tem feitos admiráveis na história do futebol.

Lembre-se de grandes pontas que já passaram pelos campos brasileiros. Garrincha, Canhoteiro, Julinho Botelho, Zagallo, Jairzinho, Edu, Dorval… Nenhum dele chegou perto do número de tentos marcados por Pepe, o maior ponta artilheiro do país. Além dos mais de 400 marcados pelo Alvinegro Praiano, foram vinte pela seleção brasileira e 16 pela seleção paulista. Também é o atleta com maior número de títulos importantes no ludopédio tupiniquim: 51, entre eles nove Paulistas, cinco Taças Brasil, quatro Rio-São Paulo, duas LIbertadores, dois Mundiais Interclubes e duas Copas do Mundo (1958 e 1962). E também conta com um troféu Belfort Duarte, por conta do aspecto disciplinar. Em 16 anos de futebol, entre 1954 e 1969, todos eles jogados no Santos, Pepe jamais foi expulso.

Pepe estreou no Santos em 1954, quando um treinador estreante, vindo das categorias de base, Luis Alonso Peres, o Lula, começou a dar chances na equipe de cima para alguns atletas que conhecia bem. E Pepe era um deles, famoso pela velocidade e pela potência do chute que o marcara desde a época de amador no clube Continental, da gloriosa São Vicente. No ano seguinte de sua estreia, o jovem já entraria para a história do Santos.

O time da Vila Belmiro precisava vencer o Taubaté, em casa, para se sagrar campeão paulista. O Corinthians estava logo atrás na tabela, e a vontade com que o clube do Vale do Paraíba entrara em campo sugeriu uma senhora mala preta para os atletas da chamada Burra da Central. O empate em 1 a 1 até os 38 do segundo tempo não deixavam a torcida santista celebrar um título depois de vinte anos. Aí apareceu Pepe. Ele recebeu de Álvaro e, da meia-esquerda, disparou um petardo de esquerda, rasteiro, indefensável. Era o herói daquela conquista que daria início à era mais gloriosa do Santos. Pelé chegaria só em 1957 e entraria em um time já formado, bi-campeão, e que devia muito disso a José Macia.

Mas talvez o grande jogo de Pepe tenha sido a memorável virada propiciada por ele na segunda partida da final do Mundial Interclubes, em 1963. O Milan havia vencido o Alvinegro por 4 a 2 na ida e, na de volta, vencia por 2 a 0 até o intervalo. Sem Pelé e o capitão Zito, foi Pepe quem resolveu.

De um primeiro tempo com céu estrelado para uma torrencial chuva na segunda etapa. O Maracanã alagado, mesmo com 132 mil pessoas a favor do Santos, poderia ser a trincheira ideal para a forte defesa italiana com Maldini e Trapattoni. Mas não foi. A guerra começou a ser decidida com um petardo de Pepe, de falta, a 4 minutos. Aos 21, o Canhão voltou a funcionar e saía ali o quarto gol.

Menos de metade do segundo tempo e a base da seleção italiana, reforçada por Amarildo, o “possesso”, um dos heróis brasileiros de 1962, e Mazzolla, campeão do mundo em 1958, caía perante o Santos. Sem Pelé, sem Zito, sem Rildo, mas com Pepe, Almir, Coutinho, Lima…

E olha que Pepe quase não disputou a partida. Quem conta essa história é o próprio, que tive o prazer de entrevistar para a revista Fórum. E assim ele descreveu aquele momento decisivo para a história do Peixe:

Fórum O Santos sem Pelé, machucado, e você não ia jogar...

Pepe – A equipe precisava de mim, dos meus chutes e ele ia colocar o Batista, que jogava mais na armação. O Lula estaria preocupado porque o time do Milan era muito forte e ele queria fechar mais o meio. Quando o Dalmo me disse isso, falei: “vou dar um bico na bola e vou embora, vou pegar o primeiro trem”. Bem na hora da decisão com o Milan eu ia ficar de fora para entrar um jogador que nem é ofensivo?

Acabei ficando lá e quando deu 5 horas da tarde – o jogo era às 9¬–, fui chamado para um quarto da concentração. E lá estava o Lula, que me perguntou: “ô, ‘Bomba’, como é que tu está hoje?” Respondi: “estou bem, professor, pode contar comigo”. Acho que o Modesto Roma e o Nicolau Moran tiraram da cabeça dele a asneira que iria fazer, talvez, por conta daquela pontinha de vaidade. Aí joguei e, se eu não jogasse, realmente o resultado seria outro. Virei a partida, marquei o primeiro gol e aproveitei bem o campo molhado com meu chute forte, coisa que o Batista não tinha como aproveitar.

(A entrevista completa está aqui)

Já como técnico, Pepe foi o comandante do último título de Pelé no Santos, o Paulista de 1973. Foi autor de outra façanha ao dirigir a Inter de Limeira no primeiro título estadual de um clube do interior, transferindo-se no mesmo ano para o São Paulo e obtendo o campeonato brasileiro daquele ano. Apareceu bem ainda à frente da Portuguesa Santista em 2003, levando o time às semifinais do Paulista e revelando atletas como o volante Adriano, o atacante Rico e o meia Souza, que foram para o São Paulo logo em seguida.

No campo ou no banco, sempre campeão. E santista de alma. Neste dia 25 de dezembro, quando completa 74 anos, as sinceras homenagens do autor deste blogue e de toda a nação peixeira.

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