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Gylmar dos Santos Neves, maior goleiro da história do Peixe, morre aos 83

Morreu neste domingo talvez o maior goleiro da história do Brasil, certamente um dos maiores do mundo, único arqueiro bicampeão mundial por uma seleção. Gylmar do Santos Neves, 83 anos completados no último dia 22 de agosto, não resistiu a um infarto e uma infecção urinária que debilitou o seu estado de saúde já frágil. Com parte do corpo paralisado e dificuldades de fala desde um derrame cerebral ocorrido em junho de 2000, Gilmar estava internado no Hospital Sírio Libanês desde 8 de agosto. Deixa uma vida e uma trajetória repletas de feitos e títulos.

O blogue Tardes de Pacaembu lembra o início da trajetória do ídolo, nascido em 22 de agosto de 1930 em Santos. Em sua terra natal, jogou no time de várzea Vila Hayden FC quando jovem e, sem poder treinar no time do Peixe por conta de outros goleiros que estavam lá à época, foi atuar no Portuários, time amador da Companhia Docas de Santos. Arnaldo de Oliveira, o Papa, trabalhava no Jabaquara e chamou o arqueiro para fazer testes na equipe. Aprovado nos testes, começou entre os aspirantes em 1947 e, em 1950, estreou no time titular em função de uma contusão do titular Mauro. Mesmo com a goleada sofrida contra o São Paulo, 5 a 1, o goleiro agradou.

Boa parte da história de Gilmar pode ser conferida no belo livro Goleiros (Alameda Editorial), de Paulo Guilherme. Uma de suas maiores inspirações foi o palmeirense Oberdan Cattani. Quando ainda atuava no Jabaquara, em 1951, em uma vitória palmeirense por 2 a 0 sobre o time da Caneleira (então era do Macuco, bairro onde nasceu Gilmar), o ídolo palestrino atravessou o campo para cumprimentá-lo e profetizar: “Muito bem, garoto. Continue assim que você vai vencer”.

Sendo o goleiro menos vazado daquele ano, foi contratado como contrapeso pelo Corinthians na negociação que levou o meia Ciciá ao Parque São Jorge. Tendo acima dele Bino e Cabeção, revezava na posição de titular com o segundo quando veio um jogo em que o Timão foi derrotado por 7 a 3 pela Portuguesa, em novembro de 1951. Acusaram-no de ter amolecido e acabou afastado por seis meses. Só voltou em 1952, quanto atuou em uma excursão do time na Turquia, se destacando com grandes apresentações. Contra a seleção da Dinamarca, defendeu três pênaltis, um feito, como lembra Odir Cunha no livro Times dos Sonhos (Códex).

A trajetória brilhante, mas conturbada, de Gilmar no Corinthians ainda envolveria uma contusão em outubro de 1953 que o afastou dos gramados por 8 meses, tirando suas chances de ir à Copa de 1954. Àquela altura, já havia sido convocado para a seleção pela primeira vez, jogando contra a Bolívia pela Copa América e chegando a defender um pênalti.

Ao se recuperar, havia outro treinador no Parque São Jorge. Oswaldo Brandão tinha sido justamente o técnico luso naquele 7 a 3 e o jogo seguinte era contra a Portuguesa. Cabeção foi sacado da equipe e pediu para ir embora, com Gilmar se firmando após aquela “revanche” contra a Lusa, sendo um dos melhores jogadores da conquista corintiana do campeonato paulista de 1954, do IV Centenário. Assumiu como arqueiro titular da seleção em 1956, colocando na reserva Castilho, que havia sucedido Barbosa. E reconhecia, em entrevista ao Jornal da Tarde no ano de 1987, passagem retratada em Goleiros, a ajuda do colega que ficou como suplente. “Eu nunca conheci um jogador de tão bom caráter. Castilho não demonstrou o menor recalque da reserva. Ao contrário, sempre me orientou, tratando-me com toda a dignidade.” Ao contrário de muitos ídolos do mundo da bola, Gilmar sempre foi humilde, sabendo reconhecer os méritos de colegas e rivais.

Gilmar afaga o garoto Pelé, após o título de 1958

Gilmar afaga o garoto Pelé, após o título de 1958

Herói brasileiro como o primeiro goleiro campeão mundial em 1958, Gilmar inspirou toda uma geração de “Gilmares”, já que diversos pais resolveram batizar seus filhos com seu nome, ainda que o seu seja grafado com “y” em sua certidão de nascimento. Outro goleiro de seleção, o hoje empresário Gilmar Rinaldi, ex-Flamengo, São Paulo e outros, foi batizado assim em janeiro de 1959 justamente por conta do então arqueiro corintiano.

Gilmar no time dos sonhos

Com o início do jejum de títulos corintiano, vários jogadores foram pressionados no clube. Gilmar foi um deles. Após ficar fora de algumas partidas por conta de uma lesão no braço, com o médico do clube dizendo que se tratava de “corpo mole”, o goleiro caiu de mau jeito em um treino e, sem camisa, foi mostrar o braço inchado ao presidente do clube, Wadih Helou. “Olha aqui o corpo mole. Mas não se preocupe que eu vou operar por conta própria”, disse, segundo o livro Goleiros.

Assim o fez, e o clube negociou Gilmar em 1962. De acordo com o Almanaque do Corinthians, de Celso Unzelte, foram 395 jogos dele entre 1951 e 1961, 243 vitórias, 75 empates e 77 derrotas. O clube brasileiro interessado no arqueiro era o Santos, que não tinha recursos para contratá-lo, mas conseguiu um empréstimo da Federação Paulista de Futebol e uma doação do empresário José Ermírio de Moraes, como destaca o livro Time dos Sonhos. Gilmar não levou nada na negociação e recusou outro convite de time campeão para ir à Vila.

“O Peñarol ofereceu uns 12 milhões para o Corinthians, mais uma fortuna na minha mão, mas resolvi não ir. Não queria dar mais nenhum tostão para o Corinthians. Eles me judiaram demais”, disse. “No Santos, recuperei a alegria de jogar. Me senti rejuvenescido”, disse em depoimento ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Substituiu Agenor Gomes, Manga, campeão paulista de 1955, 1956 e 1958, e estreou em 7 de janeiro, na goleada contra o Barcelona de Guayaquil, amistoso disputado no Equador, um 6 a 2 com Coutinho marcando quatro gols e Zito e Pepe um cada. Na partida, revezou posição com Laércio. Naquele ano, foi campeão mundial duas vezes como jogador santista. Pela seleção, na Copa do Mundo do Chile, e pelo Peixe, no estádio da Luz, contra o Benfica.

Foi na Copa de 1962, aliás, que Gilmar fez a defesa que considerava a mais importante da sua vida. Na última partida da primeira fase, contra a Espanha, os rivais venciam por 1 a 0 na metade do segundo tempo quando Gento, do mítico Real Madri, avançou pela esquerda e cruzou para Puskas, que disputou a bola com Mauro. O goleiro se antecipou aos dois e tirou a pelota, caindo após o choque triplo. No rebote, Peiró chutou de primeira, com força, para um gol aparentemente vazio. Mas Gilmar se desvencilhou do zagueiro e do atacante rival e defendeu o petardo. “Para se ter uma ideia, foi uma jogada tão importante que os próprios espanhóis justificaram sua eliminação naquela defesa”, disse. O Brasil venceu de virada por 2 a 1.

Gilmar, com a camisa que ele foi mais vitorioso

Gilmar, com a camisa que ele foi mais vitorioso

No Alvinegro Praiano, formou com outros craques o time considerado por muitos o maior de todos os tempos e colecionou uma série de títulos. Em uma de suas partidas mais famosas, brilhou na final da Libertadores de 1963 contra o Boca Juniors, assegurando a épica vitória santista na Bombonera por 2 a 1. “Era a pedra de segurança de uma equipe que encantava o mundo, me fascinava”, como conta Antero Greco nesse post.

O tal tempo, implacável até com os maiores, também chegou para Gilmar. Em 1966, não foi bem nas finais da Taça Brasil contra o Cruzeiro, sofrendo seis gols na primeira partida. Na Copa do Mundo, com dores no joelho, jogou a primeira partida contra a Bulgária e a segunda contra a Hungria, sendo sacado para a entrada de Aílton Corrêa Arruda, Manga, na peleja contra Portugal.
No Santos, foi campeão mundial (1962/1963), da Libertadores (1962/1963), brasileiro (1962/1963/1964/1965/1968), do Torneio Rio-São Paulo (1963/1964/1966), paulista (1962/1964/1965/1967/1968), da Recopa Sul-Americana (1968) e da Recopa Mundial (1968). Sua última participação no time foi no dia 5 de outubro de1969, em uma derrota contra o Cruzeiro por 3 a 2, partida válida pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, no Morumbi. Pelo Peixe, foram 330 partidas, o que faz de Gilmar o quarto arqueiro que mais vestiu a camisa alvinegra, mas, para muitos, foi o maior dentre todos.

Despediu-se da seleção em em 12 de junho de 1969, aos 39 anos, dois meses e 20 dias, um amistoso com a Inglaterra no qual se tornou o goleiro mais velho a vestir a camisa canarinha. Fez 103 jogos pelo Brasil, sendo o terceiro goleiro com mais partidas pela equipe (fica atrás de Taffarel, 108, e Leão, 107) com 104 gols sofridos. Foi eleito pela revista francesa Paris Match como o melhor goleiro da história e um contemporâneo seu, o lendário Lev Yashin, o Aranha Negra, também o tinha como o melhor de todos os tempos.

Talvez por aguardar a Gazeta Esportiva na segunda-feira só pra ver as fotos de Oberdan, Gilmar fez da elegância uma marca. Suas famosas pontes, plásticas, são lembradas com saudades por aqueles que o viram jogar e viraram uma grife sua, influenciando gerações que vieram depois. De novo, é Antero Greco quem o define à frente daquele Santos dos anos 1960. “Lembro de Gilmar todo de preto, cotovelos e laterais do calção acolchoados. Uma segurança extraordinária no gol de um time temível, que rodava o mundo deixando rivais felizes e honrados com as surras que levavam. Lá atrás, estava o grande Gilmar, que crescia, ficava enorme na frente dos atacantes, e parecia não fazer força nenhuma na hora de defesas memoráveis.”

Vai mais um herói do tempo em que nós, brasileiros, no futebol, éramos reis.

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Depois de apanhar, Santos mostra que continua de pé

Em um dos grandes momentos da história do cinema (só que não), Sylvester Stallone, investido no papel de Rocky Balboa pela sexta vez nas telas do cinema, vira para seu filho, que não quer que o ‘Garanhão Italiano” suba ao ringue com 60 anos de idade, e despeja sua sabedoria em uma frase. “Não importa o quanto você bate, mas sim o quanto consegue apanhar e continuar seguindo em frente.”

E o time do Santos que entrou em campo ontem apanhou na semana passada. Até mais do que as incríveis surras que o personagem de Stallone tomou de diferentes lutadores durante a série cinematográfica. O que estava em questão hoje não era apenas o clássico contra o Corinthians, mas se os moleques e os veteranos, espezinhados com razão por Deus e pelo mundo, iriam suportar a pressão e jogar de forma digna contra um dos times mais consistentes do Brasil.

O início da peleja, com um gol de Paulo André aos 3 minutos, dizia que não. Hoje, não. Ou… hoje, sim? Lembrei daquele time de meninos de 2002, cuja fórmula cantada por comentaristas para que ele caísse na segunda partida das quartas de final do Brasileiro contra o São Paulo era tomar um gol no começo do jogo. E o Santos tomou. Mas não caiu. Também não tombou na noite de ontem.

Chegou a ter 68% de posse de bola no primeiro tempo. Mas pouco ameaçou o gol de Cássio. Essa vem sendo a tática do Corinthians de Tite, pressionar e marcar logo no começo, e depois esperar pelo contra-ataque. Nas duas partidas contra o Corinthians na Libertadores de 2012, na maior parte do tempo o Timão, com a vantagem, marcou atrás da linha da bola contra o Peixe. E se deu melhor.

Mas aquele Corinthians tinha mais qualidade técnica com Paulinho no meio. O Santos também era melhor tecnicamente que o time de Claudinei Oliveira, mas menos coeso taticamente. E menos aguerrido. Porque os donos da casa hoje entraram querendo curar a ressaca, provando que podiam aguentar qualquer trago e qualquer tranco, mesmo com o revés do início.

Na segunda etapa, a superioridade se traduziu em gol. Em um, de William José, mas poderia ter sido dois, poderia ter sido uma vitória de virada. O Santos tomou conta do meio de campo corintiano, Tite tentou corrigir a desvantagem colocando Ibson no lugar de Romarinho. Não bastou. Arouca, Leandrinho, Cícero e, principalmente, um onipresente Montillo, em sua melhor atuação pelo Santos, fizeram do meio de campo seu castelo. Sem contar Léo atrás, que roubou a bola do contra-ataque que resultou no tento peixeiro e Edu Dracena, que calou a boca do crítico futepoquense que o cobrou em relação às declarações infelizes de alguns dias atrás. E Neílton, menos vistoso que eficiente, também mostrou que o passeio de Barcelona foi isso. Um passeio que ficou pra trás, como aqueles que fazemos nas férias.

Assim como no jogo contra o Coritiba, o time não conseguiu traduzir a superioridade nos três pontos. Numa competição de pontos corridos, isso é grave. A equipe precisa do algo a mais, de um ou dois jogadores com poder de decisão, que possam mudar uma partida ou fazer o inesperado quando o contexto exigir. O novo gerente de futebol, Zinho, chegou com a ingrata missão de buscar esse (ou esses) “a mais”. Os santistas aguardam com ansiedade.

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Edu Dracena e os maiores zagueiros artilheiros da história do Santos

Dracena comemora seu 15º tento pelo Santos, na semifinal do Paulistão 2013

Com o gol que levou a partida contra o Mogi Mirim para a disputa de pênaltis, Edu Dracena não só assegurou a ida do Santos à final do Paulista de 2013 como também garantiu a vice-liderança entre os maiores zagueiros-artilheiros do clube.

Desde 2009, quando chegou ao Alvinegro, Dracena marcou 15 gols, mesmo número de três outros ex-peixeiros. Além do lance do empate contra o Mogi, o capitão santista também fez outros tentos importantes, como os anotados contra o Atlético-MG, nas quartas, e contra o Vitória, na final da Copa do Brasil de 2010. Também fez o seu contra o Cerro Porteño, nas semifinais da Libertadores de 2011. Confira abaixo quem são os outros quatro zagueiros que fazem parte da lista dos maiores artilheiros santistas na posição.

Alex (2002 a 2004) – 20 gols

O maior zagueiro artilheiro da história peixeira treinava entre os juniores do Jabaquara, de acordo com essa matéria, quando o técnico Emerson Leão precisou de gente para completar dois times em um coletivo. Alex entrou e conquistou a confiança do treinador, que resolveu apostar no talento do então garoto de 20 anos para formar dupla com André Luiz, as “torres gêmeas” da Baixada.

Apelidado de “novo canhão da Vila” por conta do seu chute forte, fez gols em cobranças de falta e também de cabeça em sua passagem pelo Santos. Campeão brasileiro em 2002, foi vice-artilheiro da equipe no Brasileiro de 2003, ao lado de Diego, Robinho, Renato e Willian, com nove gols, ficando atrás somente de Fabiano, com dez. Em 2004, foi para o PSV e, mais tarde, chegou ao Chelsea. Hoje, está no Paris Saint-Germain e faz dupla ao lado de Thiago Silva.

Joãozinho (1977 a 1983) – 15 gols

O quarto-zagueiro Joãozinho, apelido de João Rosa de Souza Filho, veio do Vitória para o Santos em junho de 1977, aos 21 anos, e já tinha fama de artilheiro, pois havia marcado nove gols no campeonato baiano de 1976. Logo que chegou, reza a lenda que um dirigente santista chegou no vestiário e tratou de estabelecer a “nova ordem”. “Joãozinho aqui no Santos só tem um e é esse que chegou do Vitória. De agora em diante, o ponta-esquerda que veio do São Cristovão deixa de ser Joãozinho e passa a ser João Paulo, que é o nome dele.” O ponteiro era “só” aquele que viria a ser o segundo maior artilheiro da Era Pós-Pelé, o Papinha.

Joãozinho, entre o goleiro Vítor e o parceiro de zaga Neto

Joãozinho, entre o goleiro Vítor e o parceiro de zaga Neto

O zagueiro fez parte da primeira edição dos Meninos da Vila, campeão paulista em 1978, e foi vice-campeão brasileiro em 1983. Mais tarde, ele era o auxiliar de Serginho Chulapa e assumiu o comando do Santos após a saída do ex-artilheiro, em 1994. Treinou o Santos até meados de 1995, quando foi substituído pro Cabralzinho, que comandaria a bela equipe vice-campeão brasileira daquele ano. Hoje, Joãozinho é supervisor das divisões de base do Alvinegro.

Márcio Rossini (1981 a 1985 e 1990) – 15 gols

Vindo do Marília, Márcio Rossini era o tipo de zagueiro central que não “aliviava”. Com 1,82 e 78 quilos nos bons tempos, foi um líder em campo na sua passagem pelo Peixe e chegou à seleção brasileira em 1983, disputando 13 partidas pela seleção treinada por Carlos Alberto Parreira.

Com Toninho Carlos, defensor que era mais técnico, formou uma dupla daquelas que muitos consideram a ideal para uma zaga, com um “zagueiro zagueiro” e outro clássico. Juntos, jogaram pelo Santos, pela seleção brasileira e, mais tarde, pelo Bangu. Além dos tentos marcados pelo Alvinegro, Márcio Rossini também fez um belo gol pela seleção brasileira, em 1983, um empate em 3 a 3 contra a Suécia. Veja abaixo o gol.

André Luis (2000 a 2004) – 15 gols

Cria da base santista, o gaúcho André Luis estreou no time no ano 2000, em uma vitória por 7 a 2 contra o Araçatuba. Disputou os Jogos Olímpicos de Sidney pela seleção, mas não chegou a se firmar no clube no período, sendo emprestado para o Fluminense entre o segundo semestre de 2001 e o primeiro de 2002. Um dos principais motivos da sua saída momentânea foi o escorregão diante do atacante Gil, do Corinthians, que resultou no gol de Ricardinho e na desclassificação alvinegra nas semifinais do campeonato paulista.

No seu retorno, fez bela dupla de zaga com Alex e foi peça importante na campanha que levou o Peixe ao título do Brasileirão de 2002, obtido contra o Corinthians. Ficou na equipe até 2004, transferindo-se na temporada de 2005 para o Benfica, após desentendimento com Vanderlei Luxemburgo.

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101 anos do Santos – veja quais jogadores fizeram 4 ou mais gols em uma só partida

Na peleja que antecedeu o aniversário de 101 anos do Santos, comemorado hoje, Neymar resolveu dar um presente à torcida fazendo quatro gols contra o União Barbarense. Foi a terceira vez que ele marcou quatro gols em uma mesma peleja, já havia feito isso no Brasileiro de 2012, contra o Atlético-PR, e pela seleção sub-20, no Sul-americano da categoria em janeiro do ano passado, contra o Paraguai. Mas, pela Copa do Brasil de 2010, Neymar fez mais: cinco tentos contra o Guarani, na goleada de 9 a 1 do Alvinegro.

Mas o Santos, time profissional que tem mais gols no planeta, tem outros exemplos de artilheiros que fizeram a festa da torcida em uma partida. E, de acordo com o Almanaque do Santos FC, de Guilherme Nascimento, o primeiro santista a marcar quatro gols em uma mesma partida foi o meia Paul, em 9 de setembro de 1913. A partida foi contra o Atlético Santista, vitória por 6 a 3. Em 1915, Ary Patusca foi além, marcando seis contra o São Paulo Railway, vitória de 8 a 0 do Santos. O detalhe: quatro gols foram de cabeça.

Em 1917, o mesmo Ary faria seis gols de novo, contra o São Cristovão, do Rio de Janeiro. No triunfo peixeiro de 8 a 4, todos os gols foram de cabeça. No ano seguinte, 10 a 0 no Americana, e ele marcou seis, com Fontes fazendo os outros quatro. Ary Patusca disputou 85 jogos pelo Santos e marcou 103 vezes, média de 1,21 por peleja.

Haroldo Domingues também fez quatro na vitória peixeira sobre o Ypiranga em 1919, 6 a 3. Ele, aliás, é um personagem central na história da seleção brasileira. Foi técnico e jogador do time que conquistou a primeira Copa América da história do país, no mesmo ano de 1919, contra o Uruguai.

Araken, Feitiço e a linha dos cem gols

Araken, irmão de Ary: família de artilheiros

Araken, irmão de Ary: família de artilheiros

Sabem aquela história do “ele é bom, mas bom mesmo é o irmão dele”? Pois Ary Patusca tinha um irmão, Araken, que começou a jogar no Peixe em 1923 e formaria, junto com Omar, Camarão, Feitiço e Evangelista a primeira linha que faria cem gols em um campeonato no Brasil, em 1927. Mas, antes da consolidação desse ataque assombroso, Camarão fez quatro em 1927, na vitória contra o Ypiranga. No mesmo ano, Araken debutaria na lista dos “goleadores quádruplos” no triunfo de 7 a 1 contra o AA Pinhalense. Já Camarão marcou quatro no 8 a 3 contra o SC Internacional em 1926. Daí chegou 1927 e…

Na primeira partida do ano, a maior goleada do Peixe até então: 11 a 1 contra o CA Ipiranga, só Araken fez cinco. No campeonato paulista, foram 16 partidas e 100 gols marcados, média incrível de 6,25 por jogo. Patusca foi o artilheiro da competição e prepare-se para a lista das pelejas nas quais ele marcou pelo menos quatro vezes. No 9 a 3 contra o São Paulo Alpargatas e no 10 a 1 contra o Guarani, fez quatro; no 10 a 2 diante do AA República, marcou cinco; contra o SC Americano, fez seis em um 11 a 3; e na super goleada de 12 a 1 contra o CA Ipiranga foi às redes sete vezes.

No mesmo campeonato paulista, Feitiço ficou atrás, mas não muito. Marcou quatro no 7 a 1 no AA Barra Funda e fez bis no 11 a 2 contra a mesma equipe. Marcou todos os tentos da vitória de 4 a 3 contra o Comercial de Ribeirão Preto, foi o autor de todos os cinco gols do 5 a 3 contra a Portuguesa Santista e marcou cinco no 9 a 0 contra o Corinthians de Santo André. O Alvinegro acabou com o vice-campeonato ao ser derrotado em partida com arbitragem polêmica, um 3 a 2 para o Palestra Itália.

Feitiço, média de 1,4 gol por jogo

Feitiço, média de 1,4 gol por jogo

Feitiço é o quinto maior artilheiro da história do Alvinegro, com 213 gols em 151 partidas, média de 1,4 por jogo. Já Araken é o oitavo na lista, média de 0,91 por peleja. Em 1928, Wolf fez cinco nos 10 a 0 contra a Portuguesa E, mas Feitiço continuou fazendo história. E que história. Marcou quatro nos 6 a 3 contra o CA Ipiranga e cinco no 7 a 2 contra a Portuguesa E, ambos em 1929. No ano seguinte, uma partida histórica. O Alvinegro derrotou a seleção francesa por 6 a 1, e ele balançou as redes quatro vezes.

Antes do Peixe obter seu primeiro título paulista, em 1935, Raul Cabral Guedes fez seis gols no 9 a 1 contra a seleção fluminense, em 1933. Mais à frente, Carabina marcaria seis na vitória por 10 a 3 contra o Coritiba (jogo de estreia dele e de Antoninho), em 1941, sendo cinco tentos de cabeça, repetindo a dose em outra goleada por 8 a 2 contra o Comercial, no mesmo ano. Sete anos mais tarde, em 1948, o contestado atacante Odair Titica fez todos os cinco da vitória contra com Comercial, em grande partida de Antoninho, o arquiteto.

Pelé e a Era de Ouro

Pelé chegou no Peixe, que era bicampeão paulista de 1955/1956, em 1957, e iniciaria então a maior trajetória de gols de um atleta profissional. Foram muitas vezes em que ele marcou quatro tentos, mas, oficialmente, a primeira aconteceu na sua 29ª partida pelo Alvinegro, um 7 a 2 contra o Lavras, de Minas Gerais no seu ano de estreia. No mesmo ano, faria de novo a mesma marca outras três vezes nas goleadas contra o Guarani, 8 a 1, Nacional, 7 a 1, e Portuguesa Santista, 6 a 2.

Sim, o Rei Pelé fez isso em seu primeiro ano como atleta profissional, e, contra o time em que fez mais gols, o Corinthians, marcou quatro gols de uma só vez em três ocasiões: 6 a 1 em 1958, 7 a 4 em 1964 e 4 a 4 em 1965. Fez também o mesmo número de tentos contra outros times grandes, como em 1961, contra o São Paulo, em um 6 a 3. E nem times de fora escaparam, que o diga a Inter de Milão, que tomou um 7 a 1 em 1959 com quatro gols de Pelé, o que garantiu o título do Torneio de Valência ao Alvinegro. O Rei também vitimou o Eintracht, da Alemanha, resultado de 5 a 2. Marcou cinco tentos contra Prudentina, Noroeste, Remo… E, claro, não se pode esquecer o histórico 11 a 0 no Botafogo de Ribeirão Preto, em 1964, no qual fez oito.

Nesse período da chamada Era Pelé, não era só ele que brilhava, obviamente. Coutinho fez cinco gols em três ocasiões diferentes: na vitória por 12 a 1 contra a Ponte Preta em 1959; na “sacolada” contra o Basel, da Suíça (lá) por 8 a 2 em 1961 e no triunfo sobre o XV de Piracicaba, por 5 a 1, em 1962. Toninho Guerreiro marcou quatro na goleada contra o Grêmio Maringá, 11 a 1 no ano de 1965. Douglas, em um amistoso contra o Benfica de Hudson (EUA) anotou quatro em um 10 a 1, disputado em 1970.

Molina, quatro vezes contra o San Jose

Molina, quatro vezes contra o San Jose

Dino Furacão, Giovanni e Molina

Depois da Era Pelé, o clube oscilou bastante, vivendo alguns períodos nos quais teve várias formações mais fracas. Mesmo quando não disputou títulos, o Peixe conseguiu em diversas ocasiões ou ter o melhor ataque ou o artilheiro da competição. Mas, às vezes, aparecia uma artilheiro de um jogo só que depois não vingava.

Foi o caso, por exemplo, de Dino Furacão, já citado neste post. No Brasileiro de 1986, o Peixe bateu o Náutico por 5 a 0 na Vila Belmiro, e ele fez quatro. Dez anos mais tarde, um atleta com muito mais técnica, o Messias Giovanni, fez quatro na goleada alvinegra de 8 a 2 contra o União São João de Araras.

Na Libertadores de 2008, foi a vez do meia colombiano Molina brilhar. Ele marcou quatro na goleada peixeira de 7 a 0 contra o San Jose, de Oruro. Agora, é torcer para que Neymar ainda possa fazer outros tantos pelo Santos. E esperar os outros que ainda virão.

PS: Um parênteses aqui: muitos torcedores, de todos times, reclamam da parcialidade da mídia, muitas vezes por paranoia ou pela não aceitação de argumentos contrários, mas em outras há doses gigantes de razão. Em 2011, quando ao atacante do Fluminense Fred fez quatro na vitória contra o Grêmio por 5 a 4, o Estado de S.Paulo publicou esta matéria com o seguinte título: “Veja quem, como Fred, já marcou quatro gols numa mesma partida”.

Bom, dá pra esperar alguma diversidade dos exemplos, não? Não. O único representante do time que mais marcou gols no mundo é Pelé, e cita-se apenas uma partida, o 6 a 1 contra o Corinthians em 1958. Dos outros sete exemplos, seis são de jogadores do São Paulo. Pessoal podia disfarçar um pouquinho, né?

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Afinal, quantos gols Guga fez contra o Corinthians?

Uma matéria que saiu esta semana no Uol traz um pouco da história do ex-artilheiro santista Guga. Após quase ser baleado em uma lotérica da qual era dono, o ex-camisa 9 tem hoje uma escuna que faz a travessia de Ilha Grande e vive como guia turístico ali.

Mas um detalhe chama a atenção no texto, quando se diz que Guga “fez mais de dez tentos em clássicos contra o Corinthians”. De fato, o jogador teve sua passagem pelo Alvinegro Praiano marcada por suas atuações contra o rival paulistano. Em duas ocasiões ele marcou três gols, fato que lhe rendeu a alcunha de “matador de gambás”. Mas quantos gols, afinal, Guga teria marcado contra o Corinthians?

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Guga marcou duas vezes três gols contra o Corinthians

Consultando o Acervo Histórico de Guillherme Nascimento, autor do excelente Almanaque do Santos, temos uma lista com todos os gols de Guga feitos pelo Santos no período em que jogou pelo clube, entre 1992 e 1994. Foram 74 gols no total, o que rende ao atacante a 29ª posição entre os maiores artilheiros do time, o 7º da era pós-Pelé. Mas, contra o Corinthians, foram oito tentos marcados, e não mais de dez.

O primeiro “triplete” ou “hat trick” de Guga aconteceu em 1992, uma vitória de 3 a 1 do Peixe. Entre os tentos, um gol de voleio ou meia-bicicleta, de acordo com o gosto do freguês. Em janeiro do ano seguinte, marcou novamente na vitória por 1 a 0, em partida válida pelo campeonato paulista. Já em novembro, fez outro na derrota por 3 a 2 pelo campeonato brasileiro.

Em 1994, em uma partida emocionante, Guga marcou de novo três gols contra o Corinthians. Foi um jogo válido pelo campeonato paulista no qual Edinho, o filho do Rei, teve uma grande atuação e o Peixe virou de um 2 a 0 para vencer por 4 a 3 no Morumbi. Aquela peleja coroou a recuperação do clube no campeonato com Serginho Chulapa à frente, mas a fórmula de pontos corridos não permitiu que a equipe sonhasse com o título após a péssima campanha no primeiro turno.

Assim, Guga marcou oito vezes em onze partidas contra o Corinthians, mas com dois tripletes que marcaram o torcedor. O atleta que mais marcou gols contra o Alvinegro paulistano na história foi Pelé, 50 gols em 49 partidas. Pelo Santos, foram 49 tentos já que um dos gols anotados pelo Rei foi em um amistoso pela seleção brasileira. Mas isso já é outra história.

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Montillo e a chance de mais um argentino fazer história no Santos

A chegada do meia argentino Walter Montillo ao Santos engrossa a lista de estrangeiros que já jogaram no clube da Vila Belmiro. Desde que o atacante irlandês Harold Cross e o arqueiro francês Julien Fauvel, respectivamente em 1912 e 1913, abriram a fila, 76 estrangeiros atuaram no Peixe, o ex-cruzeirense será o 77º. E foram justamente os conterrâneos de Montillo os gringos que mais vestiram o manto santista. Com o atual contratado, são 26 os argentinos que jogaram no Santos.

Montillo é a esperança de bom futebol em 2013 para o Santos.

Em relação a outros clubes, é um número elevado de atletas vindos de outros países. O Corinthians teve 34 estrangeiros em sua história (sim, a conta já inclui o Zizao); o Botafogo, 58, o mesmo número do Flamengo. E o torcedor santista tem na memória boas lembranças com alguns estrangeiros, talvez a mais evidente para aquele que tem mais de 30 anos seja a passagem do monumental uruguaio Rodolfo Rodríguez, mas, se formos falar apenas de argentinos, há grandes nomes, outros com boa passagem e frustrações daquelas.

Em meados dos anos 40, o atacante Echevarrieta já havia sido ídolo no Palestra Itália, equipe pela qual marcou 114 gols em 127 jogos. Em sua passagem pelo Santos, entre 1942 e 1943, também manteve uma alta média de aproveitamento. Foram 25 jogos com 20 tentos marcados. No entanto, depois de uma derrota para o Corinthians, ele e Magonones foram suspensos pela direção técnica, permanecendo três meses sem receber qualquer remuneração. O argentino seguiu para o Ypiranga (veja mais aqui).

O lendário Ramos Delgado junto com Pelé, na Vila famosa.

Foi no fim da década de 1960, a mais dourada da história alvinegra até agora, que veio do Banfield José Manuel Ramos Delgado, um dos maiores defensores da história alvinegra. No período entre 1968 e 1972, ele foi capitão do Alvinegro, posto que também ocupou na seleção argentina, e colecionou títulos como o tricampeonato paulista (1967-1969) e o Brasileiro de 1968. Encerrou sua carreira na Mais Briosa, a Portuguesa Santista, em 1973, depois de ser o estrangeiro com maior número de atuações pelo Santos: 323 partidas.

Ainda com Ramos Delgado no clube, chegou em 1970 vindo do Racing o arqueiro Agustín Cejas, outro estupendo goleiro que vestiu a camisa peixeira até 1975. Campeão paulista de 1973, venceu, no mesmo ano, a Bola de Ouro da Placar junto com o gremista Ancheta. Foi o terceiro estrangeiro que mais atuou pelo Alvinegro, ficando duas partidas atrás de Rodolfo Rodríguez.

Do mesmo Racing, porém, um jogador do qual se esperava muito, pouco rendeu na Vila Belmiro. Leopoldo Luque tinha sido uma das principais peças da seleção argentina campeão mundial de 1978, mas, já em 1983, com 34 anos, não rendeu no Santos. Em cinco participações, não marcou nenhum gol e quase não deixou recordações para o torcedor alvinegro.

A contratação de atletas argentinos voltaria na dinastia Marcelo Teixeira, iniciada em 2000. Querendo justificar suas promessas de campanha com contratações de peso. Um dos principais nomes foi o argentino Galván, zagueiro vice-campeão brasileiro pelo Atlético-MG em 1999. O bom mesmo da zaga das Alterosas era Gerson Caçapa, mas foi o que se pôde fazer… Sem convencer, o portenho, que os antigos definiriam como “cintura dura”, lento, saiu no começo de 2002, ano em que o time saiu da fila de 18 anos sem títulos importantes.

O argentino Trípodi, gol decisivo, mas só.

Ainda na Era MT, o atacante Frontini vestiu o manto peixeiro, fazendo um gol em nove partidas disputadas em 2005. Depois, em uma leva de estrangeiros trazidos pela nada saudosa DIS, que tinha o chileno Sebastían Pinto e o inesquecível equatoriano Michael Jackson Quiñonez, salvando-se somente o colombiano “Mao” Molina, se incluía o argentino Mariano Trípodi. Ele até fez um gol importante pelo clube, na peleja decisiva contra o Cúcuta na Libertadores de 2008, mas foi só.

Agora, chega Montillo, que se junta a outros dois compatriotas que precisam convencer: o jovem Patito Rodriguez e o atacante Miralles. Quem sabe a mistura não dá samba. Ou um triste tango… para os rivais.

 

Por onde andam em 2013 alguns dos últimos atletas estrangeiros do Santos:

– Frontini – acertou com o Volta Redonda para disputar o campeonato estadual do Rio de Janeiro em 2013.

– Sebastían Pinto – ainda que tenha sido cogitado seu retorno ao Chile, ainda está no Bursaspor, da Turquia.

– Michael Jackson Quiñonez – um dos destaques do Barcelona de Guayaquil, incrivelmente tem sido convocado para a seleção do Equador.

– Mariano Trípodi – poucos atletas têm a honra de jogar no maior clube de um país. Trípodi pode se orgulhar: atua hoje no FC Vaduz, maior equipe de Liechtenstein.

– Molina – foi campeão nacionala da Coreia do Sul em dezembro, atuando pelo Seongnam.

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Santos, o lugar em que Muller foi mais feliz

Nos 18 anos que o Santos ficou sem ganhar um título importante (já que títulos, nesse período, ele conseguiu), o clube contou com muitos atletas que fazem o torcedor até hoje enrubescer de vergonha, mas também teve craques que trataram muito bem a bola e, por pouco, não fizeram o Alvinegro levar mais um troféu para a Vila Belmiro. Um deles, sem dúvida, foi Muller.

Muller no Santos

Equipe do Santos de 1998: Argel, Ronaldão, Zetti, Athirson, Anderson Lima e Claudiomiro; agachados: Muller, Caíco, Narciso, Lúcio e Jorginho. Foto do Fanático Santista.

Revelado pelo São Paulo, chegou ao Santos e estreou justamente contra seu ex-time, em 24 de abril de 1997. O jogo – você pode conferir os gols abaixo – marcou também por conta da reedição da dupla com Careca, parceria de sucesso no Tricolor paulista e também na seleção brasileira pela Copa de 1990. Chegaria a fazer dupla também com outro ex-são-paulino, Caio, que chegou à Vila Belmiro em julho do mesmo ano.

O atacante, que quando mais novo se caracterizava principalmente pela velocidade (dizia-se que nos treinos do São Paulo fazia os 100 metros em aproximadamente 11 segundos), mudou seu estilo conforme a idade foi avançando. No Palmeiras dos cem gols, de 1996, onde atuou com Rivaldo, Djalminha e Luisão, ele marcava gols, mas era mais um “garçom” que dava assistências precisas, com toques de primeira que desconcertavam os adversários. O típico atleta que já tinha a jogada pensada antes da pelota chegar aos pés.

Depois de sair do Palmeiras, seguiu para o Peruggia (ITA), onde não fez muito sucesso. E, de lá, veio brilhar no Santos. Foi na equipe que Muller obteve sua única Bola de Prata na carreira, prêmio concedido pela revista Placar, pelo Brasileiro de 1997. Ele fez companhia no ataque ao atacante Edmundo, artilheiro daquele campeonato, com 29 gols, e Bola de Ouro. O Alvinegro ficou em 6º lugar na primeira fase e, depois, terminou em segundo no grupo B, perdendo a vaga na final para o Palmeiras. O atacante, além das assistências, marcou nove vezes pelo clube no Brasileiro, o que lhe garantiu o topo da artilharia do time.

A excelente fase de Muller fez com que boa parte da opinião pública pedisse sua convocação para a seleção que iria tentar o penta em 1998. Mas Zagallo, após ter convocado o santista para amistosos, o deixou de fora da lista final, levando Ronaldo, Bebeto, Edmundo e Denílson. O treinador havia alegado na ocasião que o jogador disputou três Copas do Mundo e não jogou bem, e fugiu da concentração da Granja Comary, juntamente com Válber, nas Eliminatórias da Copa do Mundo, em 1993. Muller respondeu mais tarde: “Ele pode dizer o que quiser. Mas também tenho o direito de dar a minha opinião. Para mim, o Vanderlei Luxemburgo deveria ser o técnico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.”

Os últimos títulos antes de se aposentar foram com o Cruzeiro: a Copa do Brasil em 2000 e a Copa Sul-Minas de 2001. Jogou ainda no Corinthians, em 2001, conseguindo atuar nos quatro grandes de São Paulo. Mas onde ele foi mais feliz? Com a palavra, dada em entrevista ao Uol Esporte, o próprio Muller:

Onde você foi mais feliz?

Muller – Joguei no Santos em 1997 e no primeiro semestre de 1998 e não ganhei um título sequer, mas foi uma das melhores fases da minha carreira. Em 1998 fui considerado o craque do campeonato e ganhei o troféu pela seleção do campeonato. Foi um ano e meio de felicidade, de alegria, de prazer e de bonitos gols que marquei. Marquei minha história lá sem titulo, mas com uma passagem muito bonita.

Às vezes, jogar bem e bonito vale tanto ou mais que conquistar títulos. E isso Muller fez no Peixe.

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Serginho Chulapa e o pacto para vencer o Paulistão de 1984

Serginho Chulapa foi um dos meus primeiros ídolos no Peixe. Após ficar marcado como maior atilheiro da história do São Paulo, o atacante chegou ao Santos em 1983, sendo o artilheiro do Brasileiro daquele ano, com 22 gols. Junto como ponta-esquerda João Paulo, é quem mais marcou gols com a camisa peixeira depois da Era Pelé, com 104 tentos.

Chulapa ficou até o fim de 1984 no Alvinegro, mas teve outras três passagens pela Vila: em 1986, 1988 e 1990. Ídolo, fez o gol do título do campeonato paulista de 1984, e os bastidores dessa partida e desse campeonato estão no livro Artilheiro Indomável – As Incríveis Histórias de Serginho Chulapa (Editora Publisher Brasil), do jornalista Wladimir Miranda.

A gente sabia que não ia perder. O Castilho (ex-goleiro Carlos Castilho, já falecido, que era técnico do Santos em 84) deu a preleção dele na chácara Nicolau Moran Vilar. Eu pedi para falar com o grupo. Disse: ‘Não vamos perder este título, gente. Se eles estiverem ganhando, vamos arrumar uma confusão. Eles, durante a semana, fizeram foto de campeões. Nós vamos ser campeões. Se tiver perdendo o jogo, arrumo a confusão e todo mundo vai ter de entrar na briga’. Nosso time tinha o Márcio Rossini, Rodolfo Rodriguez, o Dema. Nosso time era problema. No braço, era problema. Saímos com essa determinação. Qualquer eventualidade, a gente ia arrumar um rolo. Foi uma voz de incentivo. O importante é que tiramos o tricampeonato do Corinthians. O título teve um sabor especial para mim. Assim que cheguei ao vestiário, tomei mais da metade de uma garrafa de uísque. Passei até mal de tanto que bebi”.

Outro ex-atleta daquele elenco, Dema, confirma na obra de Miranda o pacto proposto por Chulapa. “Ele disse que se o Corinthians estivesse ganhando, a gente ia bagunçar o jogo. Disse que ia bater em todo mundo. O Serginho era encrenqueiro. Era meio louco. Era engraçado. Ele apavorava os zagueiros. Eu via o que ele fazia e dava muita risada lá atrás. Disse para ele assim: ‘Você é o Serginho, eu estou começando a minha carreira. O que você mandar, eu faço’”.

O ex-volante lembra que não foi necessário tumultuar o jogo para o Peixe derrotar o Corinthians po 1 a 0. “Dei uma chegada no Arthurzinho e no João Paulo, e eles foram armar no meio de campo. O João Paulo, a gente já conhecia. Ele tinha jogado no Santos e nós sabíamos que colocava a bola onde queria. Então, dei uma chegada nele e pronto”.

No livro, Dema conta também que, ao contrário do que seria o normal do futebol, com os zagueiros colocando medo nos atacantes, era Chulapa quem amedrontava os defensores. E não só os defensores, como mostra uma passagem contada pelo volante santista. “Ele estava treinando cobranças de faltas. Sempre que errava o chute e a bola ia muito longe do gol, alguns torcedores que estavam vendo o treino perto do alambrado davam risada, mexiam com o Serginho. O Serginho ficou nervoso e pulou o alambrado atrás dos torcedores. Os caras, uns dez torcedores, saíram correndo. Os caras na frente e o Serginho atrás. E os outros jogadores ficavam lá, morrendo de rir.”

O lançamento do livro  Artilheiro Indomável – As Incríveis Histórias de Serginho Chulapa, será no Artilheiros Bar, rua Mourato Coelho, 1194, na segunda-feira, 12, 19h.

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A passagem de Sócrates pelo Santos

Na rica e mágica trajetória do Doutor Sócrates nos gramados está também uma passagem pelo Santos Futebol Clube. O atleta tinha voltado da Fiorentina para o Flamengo em 1986, onde havia muita expectativa com a dupla que faria com Zico. Mas ambos jogaram apenas três partidas juntos, já que sofreram com contusões. O camisa 8, em 1987, acabou se desligando do clube rumo, supostamente, a uma aposentadoria.

Mas em 1988, após aproximadamente um ano fora dos gramados, ele retornou. O anúncio da sua contratação pelo Santos foi feita com pompa e circunstância no Ilha Porchat Clube, em São Vicente. Veja no vídeo abaixo como a torcida alvinegra saudou o atleta de 34 anos em sua apresentação.

A estreia do craque foi em um amistoso contra o Cerro uruguaio. Vitória peixeira por 4 a 2, com gol de Sócrates, de cabeça. Jogou 75 minutos e, por pouco, não fez um gol de placa em uma jogada de arranque, jogada, aliás, pouco usual. O lance está no 3:23 do vídeo. Magrão deu um drible da vaca, um drible de corpo, fintou, passou uma bola por baixo das pernas do adversário e tocou por cobertura. Mas a redonda, indócil, teimou em passar por cima da meta. Abaixo, a pintura do Doutor:

A jornada de Sócrates na Vila Belmiro durou um ano. O clube, castigado por más administrações sucessivas, estava em crise financeira e passou por situações pelas quais jamais deveria ter passado como, em uma excursão realizada no Chile, a delegação fugir de um hotel sem pagar a conta. Como lembra o Blog do Prof. Guilherme, depois de uma excursão feita na Ásia, que durou 20 dias em agosto de 1989, o time estava exausto. Mesmo assim, atrás de mais dinheiro, dirigentes resolveram prolongar a viagem indo para a América do Norte. O Doutor cobrava (com toda razão) os 2 mil dólares por partida a que tinha direito, e que o Santos lhe devia desde os amistosos no Chile (quando ocorreu o episódio do hotel), realizados em fevereiro. Sem receber, Sócrates rescindiu o seu contrato e voltou ao Brasil.

Veja abaixo o Magrão marcando na vitória santista contra o São Paulo, pelo Paulistão de 1989.

Descanse em paz, Doutor, que, como cidadão que sempre foi, fará falta muita falta. Mesmo corintiano, Sócrates amava o bom futebol e lembro de uma participação sua no Cartão Verde (aliás, lembro de várias), em 2010, quando um atleta do Santo André estava no programa. Àquela altura, a única derrota em casa do time do ABC havia sido para o Santos, ocasião em que Neymar fez um dos seus mais belos gols. E Magrão disparou: “Mas perder para o Santos não é derrota, é oferenda”. Esse era o Magrão.

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