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Na Libertadores de 2004, o “time da virada” reverteu a desvantagem

Como agora, após a derrota para o América (MEX), nas oitavas-de-final da Libertadores de 2004 o Santos precisava vencer a LDU, do Equador, por dois gols de diferença para avançar no torneio continental. Na primeira partida, na altitude de Quito, o Santos fez um gol logo de cara, mas sofreu a virada e o revés de 4 a 2. O resultado custou o cargo do treinador Émerson Leão, que foi substituído por Vanderlei Luxemburgo. Ali começou, aliás, a inimizade entre os dois, já que o primeiro acusou o segundo de ter tramado sua demissão, a famosa “puxada de tapete”.

Naquele torneio, não havia a regra que valorizava mais os gols marcados fora. Na Vila Belmiro, o Peixe precisava vencer por dois dols de diferença para levar a partida para os pênaltis. E conseguiu um 2 a 0, tentos marcados por Diego. Na cobrança de penalidades, o time foi perfeito e não errou nenhuma. Bateram pelo Alvinegro Robinho, Leandro Machado, Preto Casagrande, Paulo César e Léo. Pelo clube equatoriano, marcaram Aguinaga, Salas e Reasco (que hoje está no São Paulo). Obregón perdeu e assegurou a classificação do “time da virada”.

As escalações daquela noite de 11 de maio foram:

SANTOS
Julio Sérgio; Paulo César, Pereira, André Luis e Leo; Paulo Almeida, Renato, Elano (Preto Casagrande) e Diego (Basílio); Robinho e Deivid (Leandro Machado). Técnico: Vanderlei Luxemburgo.

LDU
Jacinto Espinoza; Santiago Jácome, Carlos Espínola, Giovanny Espinoza; Néicer Reasco, Alfonso Obregón, Patricio Urrutia, Paul Ambrossi, Alex Aguinaga; Franklin Salas e Carlos Villagra (Gómez). Técnico: Daniel Carreño.

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Arquivado em Século 21

Dois “causos” sobre Mengálvio

O eterno ponta-esquerda José Macia, o Pepe, registrou em livro deliciosas histórias que ele viveu e ouviu no futebol. “Bombas de Alegria” (Editora Realejo) é uma leitura obrigatória para quem quer saber mais do folclore boleiro contado por quem viveu intensamente esse universo.

E um dos personagens que está no livro é Mengálvio Pedro Figueiró. Ele, que fez parte da maior linha de ataque do futebol mundial, com Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe, não alcançou a mesma projeção a posteriori que seus companheiros de pelota, mas era um senhor craque. Foi à Copa de 1962 e era reserva de ninguém menos que Didi, o “Folha Seca”. Percebe-se que era difícil ser titular… Além desse título, foi seis vezes campeão paulista, cinco vezes vencedor da Taça Brasil, ganhou três vezes o Rio-São Paulo e conseguiu ser duas vezes campeão da Libertadores e Mundial, tudo pelo Santos.

Mas, vamos às histórias de Pepe. Ele conta que, logo após o título de 1962, o presidente João Goulart ofereceu um banquete aos campeões na granja do Torto. Depois do almoço, o tímido Mengálvio conversava longamente com o presidente e, ao anoitecer, quando foi embora, Menga apertou a mão de Goulart e disse:

– Não vai se esquecer hein, “presida”?

Depois ficou-se sabendo que o meia tinha deixado um bilhete a Goulart pedindo um emprego para sua irmã, que se formara professora. Foi gozado pelos jogadores e tomou uma bronca dos chefes.

E não é que três semanas depois do ocorrido Samira, sua irmã, estava lecionando no bairro santista do Macuco?

Cuidado com quem cantas…

O episódio Ronaldo já deixou claro que nem sempre o que parece, é. E Mengálvio viveu um desses momentos, não com o requinte “policialesco” do Fenômeno. O meia era tido como um sujeito desligado, meio desinteressado, que não prestava atenção nas coisas. Certo dia, em uma bela manhã de segunda-feira, Menga passava com seu fusca azul por uma das praças mais famosas de Santos, a Praça Mauá, no centro da cidade. Em uma esquina das redondezas, uma bela morena olhou e lhe deu um sorriso.

Mais uma volta, Mengálvio olha pra esquina e a moça, ainda ali, novamente sorriu. O atleta retribuiu o gesto e a morena acenou para que ele parasse o carro. Pensou: “É hoje que me consagro”.

Parou com seu carro em frente à moça e ficou um pouco surpreso, um outro tanto decepcionado. A tal morena era uma de suas irmãs…

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Arquivado em Ídolos, Década de 60

Uma muralha chamada Rodolfo Rodríguez

 

Em 1984, desembarcava na Vila Belmiro um goleiro que iria marcar época no Alvinegro Praiano. Natural de Positos, cidade próxima a Montevidéu, aos 28 anos, Rodolfo Sergio Rodriguez y Rodríguez, ou simplesmente Rodolfo Rodríguez, já havia feito a torcida brasileira sofrer, mas agora prometia fazer uma torcida sorrir, a do Santos. E fez.

O Uruguai queria comemorar o cinquentenário da conquista da primeira Copa do Mundo em 1980 e, para isso, a federação local organizou um torneio comemorativo chamado de Copa de Oro ou Mundialito. Por questão de calendário, a maior parte do torneio, que envolvia todas as seleções campeãs mundiais até então mais a Holanda, teve suas partidas disputadas em 1981. Na final, Rodolfo Rodríguez teve grande atuação e seu time derrotou a seleção verde-e-amarela por 2 a 1.

Mas a decisão do Santos de contratar o arqueiro celeste, campeão da Libertadores com o Nacional do Uruguai em 1980, foi a final da Copa América de 1983. Sem sede fixa pela terceira vez consecutiva, o torneio foi decidido em duas partidas finais. Na primeira, o Uruguai derrotou o Brasil por 2 a 0 em Montevidéu e, na segunda, o empate em 1 a 1 em Salvador deu o título aos nosso vizinhos. Ali, Rodolfo parou o ataque brasileiro.

Trajetória na Vila

Com dinheiro emprestado por Pelé e intermediação do empresário Juan Figger, o Peixe trouxe o atleta uruguaio, que seria campeão paulista já em 1984. Rodolfo disputou 255 partidas pelo Santos, e permaneceu no clube até 1987. Conquistou também pelo Alvinegro o Torneio Início do Paulista (1984), a Copa Kirin-Japão (1985) e o Torneio Cidade de Marselle (1987).  

Mas talvez o fato mais marcante da passagem do uruguaio no Santos tenha acontecido no dia 14 de julho de 1984. Ali, ele fez uma seqüência impressionante de defesas contra o América de São José do Rio Preto, que está no vídeo acima.

O “milagre de Monteserrat” (em alusão à padroeira da cidade de Santos) começou com um chute do zagueiro Jorge Lima, rasteiro, forte, que ainda ganhou uma estranha trajetória graças ao gramado péssimo que a Vila tinha à época. A bola bate na trave, volta para a pequena área, e o atacante Formiga dá um carrinho, dividindo a bola com o goleiro uruguaio. Mais uma vez a bola não entra e outro atacante, Tarciso, chuta forte, a pouco mais de um metro da linha do gol. Espetacular, Rodolfo Rodríguez defende com a mão direita.

A bola, com a força do chute e da defesa, vai para fora da grande área. Toninho arrematou e o “milagreiro” voltou a defender no seu lado esquerdo. No rebote, Formiga dá novo carrinho e a bola bate na trave esquerda.

Uma das imagens mais impressionantes do futebol. Segundo o livro Goleiros – Heróis e anti-heróis da Camisa 1 (Alamed), o uruguaio fraturou o dedo mínimo nessa seqüência. Segundo o jornalista Jorge Monteiro, depois do fim do jogo, o atacante Tarciso declarou aos repórteres: “Não sei o que aconteceu, parecia que o goleiro era maior que o gol.” Pequena amostra de um fenomenal arqueiro.

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Arquivado em Ídolos, Década de 80

Araken Patusca, um dos primeiros ídolos

Ele tinha apenas 15 anos e se preparava para assistir ao jogo do clube presidido por seu pai. A partida amistosa era entre o Santos, de Sizino Patusca, e o Jundiaí. Mas, pouco antes do início da peleja, Edgar da Silva Marques, um dos atletas do Alvinegro, passa mal. O treinador Urbano Caldeira, que depois emprestaria seu nome ao lendário estádio da Vila Belmiro, coloca o garoto Araken Patusca para jogar. O Peixe empata em 5 a 5 e o menino faz quatro gols.

Começava ali a saga de Araken. O garoto tinha um bom drible e era muito veloz, tanto que ostentaria mais tarde o título de campeão paulista dos 100 metros com barreiras. Junto com ele, a partir de 1923, ainda surgem outros jovens que fariam história no Peixe e dariam início à outra tradição, a de revelar novos talentos para o futebol. Atletas como Nabor, os irmãos David e Renato Pimenta, além de Omar, Camarão e seu cunhado Siriri.

Estes três últimos, aliás, fariam com ele a mitológica linha dos cem gols, que também contou com Evangelista. Da marca centenária alcançada em 1927, Araken foi responsável por 31 gols em 16 partidas, uma média de quase dois tentos por peleja. Outro dado impressionante é que o meia conseguiu uma marca que só seria batida 37 anos depois: foi às redes sete vezes em um único jogo, na vitória de 12 a 1 contra o então tradicional Ypiranga. Só em 27 de outubro de 1964 Pelé superaria Araken, quando fez oito gols no 11 a 0 contra o Botafogo de Ribeirão Preto, na Vila Belmiro.

Fama internacional

Naquela época não era raro que jogadores fossem emprestados a outros clubes em ocasiões específicas e por curtos períodos. Foi assim que em 1925 o Santos cedeu o craque Araken ao Paulistano, que fez uma excursão para a Europa onde os brasileiros, pela primeira vez, foram chamados de “reis do futebol”. Em 16 de março, o clube estreou no estádio de Bufalo contra a seleção francesa, com Nestor, Clodoaldo e Bartô; Sérgio, Nondas e Abate; Filó, Mário de Andrada, Friedenreich, Araken e Netinho. O time ganhou de 7 a 2 e o resultado foi recebido com assombro no Brasil. Na ronda européia, em dez jogos, o Paulistano perdeu um, para o francês Cette, e teve resultados importantes como a vitória contra Suíça, por 1 a 0, e a goleada sobre Portugal, por 6 a 0. Foi ali que Araken ganhou o apelido de “Le Danger” (O perigo).

Com esse desempenho, e sendo artilheiro do Paulista pelo Alvinegro Praiano em 1927 e vice-campeão paulista por três vezes, em 1927, 1928 e 1929, era de se esperar que Araken fosse para a primeira Copa disputada no mundo, em 1930. E, de fato, seu nome estava incluído na lista enviada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD) à Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea), junto a outros companheiros de time como Feitiço e Athiê Jorge Curi.

Entretanto, a APEA não concordou com o fato da comissão nomeada pela CBD para fazer a convocação, composta pelos cariocas Píndaro de Carvalho, Gilberto de Almeida Rego e Egas de Mendonça, não contar com nenhum paulista. O imbróglio seguiu e a APEA comunicou à CBD que não iria ceder jogadores à seleção. O único paulista que foi ao Uruguai em 1930 foi Araken Patusca, que brigou com o Santos e furou o boicote bandeirante.

A volta

Araken deixou o clube santista depois de jogar entre 1923 e 1929 com as cores preto e branca. Mas voltaria no fim do primeiro turno do Paulista de 1935, depois de jogar no São Paulo da Floresta. Naquele ano, marcou um gol na partida final contra o Corinthians, um 2 a 0 que daria o primeiro título do certame ao Santos Futebol Clube.

Seguiria até 1937 na Vila, tendo disputado 193 jogos pelo Santos, com a incrível marca de 177 gols com a camisa peixeira – uma média de 0,91 gols por jogo -, o que faz dele o oitavo maior artilheiro da história do clube, imediatamente à frente de Pagão e atrás de Edu. Coube ainda a Araken a glória de ter marcado o gol 1.000 do Peixe, o primeiro do 3 a 0 contra o Atlas Flamengo, em 24 de março de 1929.

Araken teve ainda dois irmãos que atuaram pelo Santos: Ary e Ararê Patusca. O primeiro, morto em 1923, foi um dos primeiros atletas brasileiros a fazer sucesso no exterior e, com 103 gols oficiais, é o vigésimo maior artilheiro da história do Alvinegro.

Gratidão

Outro fato interessante na vida de Araken foi a homenagem prestada por ele a seu ex-treinador Urbano Caldeira, em 1938, por ocasião da inauguração do seu busto na Vila Belmiro. O já ex-atleta entregou a medalha de outro conquistada no Paulista de 35 para ser posta no monumento que homenageava Caldeira.

Na carta, Araken dizia: “Urbano ! Giba ! – Hoje, no teu Clube, no teu Estádio, inaugura-se a tua herma, homenagem justa e merecida pela tua obra, criando no esporte santista, paulista e brasileiro e, mesmo, sul – americano, o Campeão da Técnica e da Disciplina.

Teu companheiro desde os mais ingratos aos mais auspiciosos momentos, sou uma prova viva da tuas atividades no seio da família alvi-negra.

Urbano, nasci para o esporte das tuas mãos experientes e sábias; tu fizeste do menino, aos 15 anos, um esforçado entusiasta defensor das côres preto e branca.

Orgulho-me de ter sido nas tuas mãos, na tua vida esportiva, um instrumento de algum proveito, de alguma utilidade.”

Dois santistas que contribuíram para que o clube fosse o que é hoje.

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Arquivado em Ídolos, Década de 20, Década de 30

E o Uruguai descobriu o Brasil

Em idos tempos, uma data como o dia 22 de abril era celebrada no país como forma de ressaltar o caráter “patriótico” dos cidadãos. Mais tarde, com um aprimoramento da própria noção do que é ser um país, o tal “descobrimento” pelos portugueses foi associado à colonização, ao extermínio de índios e passou a ser visto como um dia nem tão digno para ser comemorado.

Contudo, para os santistas, o dia 22 de abril de 1931 foi um grande dia. Em uma noite chuvosa na Baixada Santista, o Santos enfrentou o time uruguaio do Bella Vista, simplesmente a base da seleção uruguaia campeã mundial no ano anterior. Antes de pegar o Peixe, a equipe tinha vencido a seleção paulista por 3 a 1 e entrava em campo com sete titulares que tinham feito parte da celeste que conquistou o primeiro título mundial.

Segundo o jornalista Odir Cunha, em seu Time dos Sonhos, o fim da partida marcou a maior comemoração que a Vila Belmiro tinha visto até então. Tudo porque a equipe uruguaia foi superada pelo Santos por 2 a 1, com gols de Camarão e Natinho (Castro marcou para o Bella Vista), o que era até então a maior vitória da história do Alvinegro.

Aquela equipe santista tinha vários jogadores oriundos de outro feito mais que notável: a marca dos cem gols em um único campeonato paulista, em 1927. E isso em somente 16 partidas, uma média sensacional de 6,25 tentos por jogo. O time só não foi campeão por conta de uma duvidosa arbitragem na final, que será assunto deste blogue mais pra frente. Mas, naquela noite contra os uruguaios, já era possível ver a vocação do time para grandes pelejas internacionais.

Visitante ilustre

Dentre os uruguaios em campo, um se destacava. Era o capitão do Bella Vista e da seleção uruguaia José Nasazzi, um verdadeiro mito do país, campeão nas Olimpíadas de 1924, 1928 e da Copa do Mundo de 1930. Nosso vizinhos consideram as três conquistas como o tricampeonato mundial, já que, antes das Copas, os dois Jogos Olímpicos vencidos pelo Uruguai eram os únicos torneios mundiais de futebol.

Nasazzi foi eleito o melhor jogador da Copa de 1930 e capitão da seleção entre 1923 e 1936. Segundo consta, tinha grande poder de recuperação e era um atleta rápido, um diferencial para os zagueiros, embora não fosse técnico. Além dos títulos já mencionados, conquistou quatro Copas América, em 1923, 1924, 1926 e 1935.

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Arquivado em Década de 30

Pela primeira vez, Pelé era rei

Dos times que foram rebaixados nos estaduais, um dos que mais chamou a atenção foi o América (RJ). Não à toa. Além de ter sete títulos cariocas, a equipe foi rebaixada pela primeira vez em seus 103 anos de existência. O baixinho Romário, americano confesso, promete ajudar o time do coração para que ele possa voltar à elite do futebol do Rio.

Mas o leitor desse blogue deve estar se perguntando: o que o América tem a ver com o Santos? Na verdade, um time constrói sua história também por conta de seus rivais. E é assim que igualmente se fazem os ídolos. Pois foi justamente por conta de uma partida contra a equipe carioca que Pelé foi chamado pela primeira vez de “Rei”.

O autor da alcunha foi Nelson Rodrigues. Mais tarde, após a Copa de 1958 na Suécia, a imprensa francesa confirmaria o título nobre ao garoto de somente 17 anos. A partida era válida pelo Torneio Rio-São Paulo e aconteceu no Maracanã, em 25 de fevereiro de 1958. O Peixe derrotou a equipe local por 5 a 3, com quatro gols de Pelé. O texto de Rodrigues foi publicado na edição de 8 de março da revista Manchete Esportiva. Leia a íntegra abaixo:

Depois do jogo América x Santos, seria uma crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racilamente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.  

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”. De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.

Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível em qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.

Por que perdemos, na Suíca, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.

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Arquivado em Década de 50

O Peixe contra dois colombianos

Para inspirar o Santos e os torcedores na partida contra o Cúcuta, dois vídeos que relembram como outros times colombianos nos fizeram felizes na Libertadores de 2003.

Na primeira fase, o Santos foi a Cali enfrentar o América local. O resultado: um 5 a 1 em que brilhou a estrela de Robinho. Ele driblou, deu chapéu, aplicou um elástico que quase deixou o defensor colombiano no chão… Quando substituído, o Rei do Drible foi aplaudido de pé pela torcida rival. O Alvinegro terminaria a primeira fase com 14 pontos, quatro vitórias e dois empates.

As escalações daquela partida, disputada em 5 de fevereiro:

AMÉRICA DE CALI
Julián Viáfara; Iván López, Luis Asprilla, Pablo Navarro e Rubén Bustos; Jorge Banguero, Fabián Vargas, James López (Leonardo Moreno) e David Ferreira; Julián Vásquez e Oscar Villareal (Romero). Técnico: Fernando Castro

SANTOS
Fábio Costa; Reginaldo Araújo, Alex (Preto), André Luís e Léo; Paulo Almeida, Renato, Elano e Diego (Fabiano); Robinho (Nenê) e Ricardo Oliveira. Técnico: Emerson Leão

Os gols santistas foram marcados por Léo aos 25, e Alex, aos 38 minutos do primeiro tempo. Ricardo Oliveira aos 11 e 43, e Diego, aos 14 da segunda etapa, completaram a festa peixeira. Banguero marcou o tento colombiano aos 36 do primeiro tempo.

Já este vídeo mostra a vitória santista sobre o Independiente de Medellin, na primeira partida da semifinal da mesma Libertadores de 2003. O Peixe venceu por 1 a 0, com gol do atacante Nenê após passe de Robinho, no dia 4 de junho. Na partida de volta, na Vila Belmiro, outra vitória peixeira por 3 a 2. O destaque do rival era o meia Molina, hoje nas fileiras alvinegras.

As formações:

INDEPENDIENTE
Gonzalles; Calle, Baloy e Perea; Vasquez, Restrepo, Jaramillo, Montoya (Alvarez) e Roberto Carlos Cortes; Molina e Moreno. Técnico: Victor Luna

SANTOS
Fábio Costa; Wellington (Nenê), Alex, Pereira e Léo; Paulo Almeida, Renato, Elano e Diego; Robinho e Fabiano. Técnico: Emerson Leão

O destaque

O artilheiro do time e da Libertadores daquele ano, ao lado do argentino Marcelo Delgado, foi o atacante Ricardo Oliveira, que marcou nove gols. Ele conseguiu a marca mesmo tendo ficado fora de três partidas por contusão.

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Arquivado em Século 21