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Santos centenário: o time que até hoje faz sonhar

Falar dos cem anos do Santos atendo-se às glórias conquistadas pelo clube é um tarefa quase impossível. Não só pela quantidade e pelos números incríveis da equipe profissional que mais marcou gols na face da Terra, mas também pela forma com que muitos títulos foram conquistados. E também por aquelas equipes que não obtiveram títulos e mesmo assim fizeram história, como o time que marcou pela primeira vez cem gols no futebol brasileiro em uma competição. Cem gols em 16 partidas, uma média espetacular de 6,25 gols alcançada em 1927, oito anos antes do seu primeiro campeonato paulista. Na Vila Belmiro, sempre foi assim, a arte precede aos títulos.
Pelé e Clodoaldo: o futebol agradece ao Santos
Mas, além da história do clube, existe aquela relação única que cada torcedor constrói com seu time. A minha começou mesmo antes de eu nascer, quando o meu avô materno, nascido no Sul de Minas, mudou para o litoral paulista. E um dos motivos da mudança era o fato de ele ser torcedor… do Santos. Certamente foi a narração de pelejas épicas e repletas de gols que fez seo Benedito torcer para um time que, àquela altura, nunca havia sido campeão além dos domínios da Baixada. E que, mais tarde, graças ao futebol bem jogado, conquistaria outros tantos torcedores em todo o mundo, parando guerras e dando à seleção brasileira alguns dos jogadores responsáveis pela época de ouro do futebol brasileiro. Desde os protagonistas Zito e Pelé em 1958 até os atores principais do gol mais bonito de todas as Copas em 1970, que começou com os dribles desconcertantes do santista Clodoaldo, passou pela assistência perfeita de Pelé e culminou na finalização indefensável do peixeiro Carlos Alberto Torres.
Sim, porque, diferentemente de times que surgem em capitais de estado e tem somente que superar concorrentes da própria cidade para se sobressair, contando com o inevitável apoio econômico e político (de dentro e fora do mundo da bola), o Peixe – apelido dado pelos rivais justamente para menosprezar sua origem – teve que jogar muita bola para se tornar o que é. Foi preciso subverter a lógica dentro dos gramados, arrebatando pela beleza dos lances desenhados por artistas incomuns, para também subverter a lógica que o destinaria a ser um time pequeno. O Alvinegro tornou-se gigante não pela sua natureza, geográfica ou econômica, e sim por representar em campo a essência do jogo. 
A provação
Mas nem tudo foram flores nesses cem anos. Até porque, para uma trajetória vitoriosa, a derrota e o sofrimento são elementos que ajudam a formar o caráter, do torcedor e de um time. Desde a primeira vez que pisei na Vila Belmiro – levado pelo meu pai, aos sete anos de idade, em um Santos e Ponte Preta de 1982 –, até hoje, um período em particular foi terrível: a fila de 18 anos sem título. E para alguém que está em fase de crescimento em um período como esse, a crueldade do torcedor rival é muito mais marcante, porque se junta a todas as outras agruras de criança e de adolescente. Na Baixada, onde o Santos é o mais odiado pelos rivais, o peixeiro se tornava alvo de gozação a cada bate-papo de futebol. Quando o time perdia – para qualquer adversário – volta e meia escutavam-se rojões. Fora da região, a tarefa era suportar o desdém de muitos que fingiam que o time não existia ou que era “coisa de historiador”. Para o santista, a fila era mais que uma provação, pois havia o fardo da gloriosa história para carregar, que não se refletia nas quatro linhas.
Um personagem histórico, uma partida inesquecível
Não que não tenha havido chance de o clube sair da fila. Depois de algumas formações ridículas da segunda metade dos anos 80 e da primeira metade dos 90, o Santos se reergueu. E, por destino, foi pelos pés de um camisa dez. Não, de um camisa Dez, com caixa alta. Giovanni comandou uma equipe que tinha desde jogadores “renegados” como Marcos Adriano e Macedo, até jovens e não tão jovens esperanças como Narciso, Jamelli, Edinho, Wagner, Carlinhos, Marcelo Passos, Robert e a arma surpresa Camanducaia. O meia também foi protagonista de uma das maiores partidas da rica história alvinegra e que foi, seguramente, a maior atuação individual de um boleiro que vi ao vivo.
Mas não foi ali que saímos da fila. Deixei o Pacaembu triste naquela segunda partida da final do Brasileiro de 1995, mas mesmo assim fui saudar os vice-campeões na Praça Independência, em Santos. Alguns jogadores foram até lá prestigiar aquela torcida que considerava aqueles os verdadeiros campeões brasileiros. Mas fui ali não para lamentar a arbitragem, e sim para agradecer àqueles que tinham devolvido a autoestima ao santista, que fizeram daquelas lembranças gloriosas, que eu não tinha vivido, uma realidade. Uma realidade que não se fez presente pelo título, que ao final não veio, mas pela beleza, pelo futebol bem jogado que honrava a mística da camisa alvinegra que chegou a parecer perdida.
A beleza tinha voltado, mas a zombaria continuava. E não cessou com o título do Rio-São Paulo de 1997. Nem com a Copa Conmebol de 1998. Era preciso um título mais significativo. Um Paulista, que na época tinha mais charme que hoje, ou um Brasileiro… O Estadual quase veio após uma partida enfartante em que o Peixe virou contra o Palmeiras de Felipão nas semifinais, um épico 3 a 2 depois de estar perdendo por 2 a 0 até os 23 minutos do segundo tempo. Mas, na final, o time perdeu o título para o São Paulo.
No ano seguinte, nova decepção. Desta vez, com um gol de Ricardinho no último minuto da semifinal do Paulista. Ali, antes mesmo de o gol acontecer, um pressentimento me assaltava. Na outra partida da semifinal, Ponte Preta e Botafogo jogavam para saber quem seria o outro postulante ao título. Enquanto a Ponte era a finalista, para mim era lógico superar a tradicional equipe campineira e sair da fila contra ela. O Corinthians já tinha feito isso, o São Paulo já tinha a derrotado em outra final e o Palmeiras faria o mesmo sete anos depois. Mas quando o Botafogo garantiu sua ida à final, temi pelo pior. Faltavam cinco minutos para o jogo acabar. Para mim, era certo: o Santos não sairia da fila contra o time do interior. Uma fila de 17 anos não acaba assim. Aquela certeza tétrica me fez esperar pelo pior, que veio ao fim daqueles doídos 90 minutos. Decepção era pouco. Chovia na Baixada e naquele dia até os rivais guardaram os rojões em respeito à dor alheia. 
A redenção
Em 2002, o ano também não parecia promissor. A desclassificação do time comandado por Celso Roth obrigou o Santos a viver o maior período de inatividade de sua história. Veio Emerson Leão, treinador então desacreditado, e o elenco contava com outros atletas que não haviam emplacado, como Paulo Almeida, Elano, Renato… André Luís, zagueiro-vilão do Paulista de 2001, e dois moleques como Diego, que ainda era só uma promessa, e Robinho, que nem isso era. E o final, finalmente, foi feliz.
Não foi só um título. Não foi só uma quebra de jejum. Foi um futebol que na fase final mostrou a essência da história santista: era o encantamento, a arte, o arrebatamento. O favorito “Real Madrid do Morumbi” foi derrubado; o futebol-força gaúcho do artilheiro da competição sucumbiu; e os algozes do ano anterior caíram diante das pedaladas do menino Robinho, que ainda jogou ao chão outro marcador no segundo gol daquela final e chamou dois jogadores de seleção para dançar no terceiro. E eu, que imaginei aquele momento durante tanto tempo achando que iria me emocionar, chorar, simplesmente não conseguia parar de rir. Porque aquele era um futebol alegre de fato, do tipo que sempre fez o santista e o amante legítimo da bola sorrir. O gigante havia voltado.
A dupla que deu continuidade à lenda
E, desde então, o Santos tem mostrado sua grandeza quase a todo ano. Vice do Brasileiro e da Libertadores em 2003, campeão brasileiro em 2004, campeão paulista em 2006 e 2007 (ano em que foi vice do Brasileiro); vice paulista em 2009, campeão paulista de 2010 e 2011, da Copa do Brasil em 2010 e da Libertadores em 2011. Nos dois últimos anos, deu ao mundo lindos gols e belos lances com a dupla Neymar e Ganso, além dos coadjuvantes talentosos que cativaram não só os torcedores como todos aqueles que gostam do bom futebol. Um Neymar “imparável”, como definiu um locutor mexicano, assombrando não só pela sua habilidade, mas também pela decisão de remar contra a maré e permanecer no Brasil diante de toda sorte de investidas estrangeiras. E, quando a técnica não foi suficiente e as adversidades apareceram, a raça resolveu, como quando Ganso encarnou Almir Pernambuquinho na final do Paulista, contra o Santo André. Eram novos capítulos de uma história que começou a ser escrita naquele 14 de abril de 1912, e que faz parte da minha vida antes de eu existir. Que faz com que o torcedor tenha orgulho do seu clube até mesmo quando ele não vence ou ganha títulos.
E é no centenário, nessa efeméride única, que se lembra daquilo que se viu e do que apenas se ouviu ou leu. E que sempre fez sonhar. É tempo de recordar daqueles que me apresentaram ao futebol, do meu pai que me levou ao campo sagrado da Vila Belmiro pela primeira vez e que ainda hoje me acompanha nas sagradas arquibancadas. Do meu avô que não conheci e que deve estar lá, junto com meu primo Salvador, fanático peixeiro que levou a bandeira do clube para o Além, onde deve estar apreciando o balé boleiro de estrelas como Araken Patusca, Feitiço, Camarão, Antoninho, Jair Rosa Pinto, Mauro Ramos de Oliveira, Ramos Delgado, Pagão, Tite, Vasconcelos, Toninho Guerreiro, Luis Alonso Perez e tantos outros que fizeram não só o Santos, mas o futebol brasileiro, ser o que é.
Como bem disse Mario Sergio Cortella, seu papel de filósofo também se relaciona com o fato de ser torcedor do Santos. Porque filosofar é ir além do óbvio, de buscar o inesperado. E o Santos, durante esses cem anos, foi muito além do óbvio. Que siga assim por mais muitos centenários.
Outros tantos virão para ver…
Também publicado no Futepoca.

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Antoninho, o “arquiteto”

“É o único jogador da minha posição que respeito”. Esse era o comentário que fazia entre os amigos o grande Zizinho, ídolo de Pelé, e um dos maiores meias que o planeta já viu. Ele fazia referência a Antoninho Fernandes, um jogador clássico que vestiu o manto alvinegro entre os anos de 1941 e 1954, justamente na entressafra peixeira de títulos. Assim, venceu torneios com menor importância, como a Taça Cidade de São Paulo (1949), o Torneio Quadrangular de Belo Horizonte (1951) e o Torneio Início (1952). Contudo, como um grande craque nem sempre se mede pelo que conquistou com uma equipe, encantou a torcida com um futebol com uma espetacular visão de jogo, sendo um dos jogadores mais inteligentes em seu tempo. Apelidado de “arquiteto da bola” em função de suas atuações na seleção paulista, o santista de nascimento e de coração marcou 145 gols em 400 jogos disputados pelo Peixe, marca que o coloca como o décimo-segundo maior artilheiro do Alvinegro em todos os tempos.

Mas sua técnica não agradou apenas a torcida. Uma série de clubes chegou a disputar o futebol do meia, inclusive o Palmeiras, como conta passagem publicada pela Gazeta Esportiva. O atleta foi cedido por empréstimo ao Palestra para disputar um torneio, algo comum à época. Obviamente, a habilidade de Antoninho fascinou os palestrinos, que tentaram contratá-lo. O presidente peixeiro Antônio Ezequiel Feliciano da Silva, em vista da situação financeira difícil, tentou convencer o meia para aceitar a transferência. Como era um ídolo, armou-se um esquema com o cronista esportivo Ernani Franco para tentar fazer os santistas aceitarem a venda.

Antoninho, em entrevista a Franco, falaria que a proposta seria boa para todos, e que deixaria o clube que amava para assegurar seu futuro. Mas, na hora decisiva, quando questionado se iria sair do Santos, o meia desabou em lágrimas e falou que nunca passou pela sua cabeça deixar o clube, onde pretendia encerrar sua carreira. E assim melou a negociação.

Treinador

Depois de deixar os gramados no ano anterior à conquista do segundo campeonato paulista do Santos, Antoninho foi auxiliar de Luis Alonso Peres, o Lula, durante muitos anos. Chegou a treinar a equipe em algumas oportunidades, em 1953 e 1954, mas sua carreira como efetivo começou no Atlético (MG), time que dirigiu em 1962 e 1963. A grande oportunidade surge com a saída de Lula do Peixe, em 1966.

Antoninho permaneceria à frente do Alvinegro Praiano até 1971, tendo conquistado títulos como a Recopa Mundial (1968), os campeonato paulistas de 1967, 1968 e 1969 e a Taça de Prata de 1968. O Paulista de 1969, inclusive, foi épico, já que na maior parte do campeonato o treinador contou com reservas, pois nove atletas santistas faziam parte das “feras do Saldanha”.

O “arquiteto” morreu aos 52 anos, em 1973, mas sem dúvida deixou um legado inestimável a toda a nação santista, principalmente no que diz respeito ao amor por um clube de futebol.

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Lula, o técnico super-campeão

Luis Alonso Perez, mais conhecido como Lula, provavelmente é o treinador que mais ganhou títulos no futebol mundial. Foi o comandante do grande Santos dos anos 60, e nenhum técnico no Brasil ficou tanto tempo à frente de um clube grande quanto ele. Permaneceu quase treze anos (mais precisamente, 12 anos e seis meses), entre 1954 e 1966. Nesse período, conquistou 4 Torneios Rio-São Paulo, 5 Taças Brasil, 8 campeonatos paulistas, 2 Libertadores da América e 2 Mundiais de Clubes, entre outros, totalizando 34 conquistas. Currículo pra ninguém botar defeito.

Em 1968, conseguiu outro feito, dessa vez comandando o Corinthians. Dirigiu a equipe na partida histórica em que a equipe paulistana superou o Santos no Campeonato Paulista por 2×0, após 11 anos sem conseguir uma vitória sobre o Peixe.

Conversando com Pepe a respeito do técnico, em uma entrevista da qual participei para a revista Fórum, o ex-ponta-esquerda falou a respeito de Lula. Confira abaixo o relato:

O triângulo inusitado

O Lula deve ser o treinador que tem mais títulos no mundo, ganhava tudo. A dificuldade que tinha era de se expressar. Uma vez ele chegou e disse em uma preleção: “vocês quatro do meio de campo fazem um triângulo”. Aí a gente falava “é difícil quatro fazerem um triângulo”; e ele retrucava “vocês, entenderam, vocês entenderam…”.

Era um time de feras e a maioria foi descoberta e criada pelo Lula, que tinha um olhar clínico muito bom. Antes dele as categorias de base eram muito fracas e não revelavam quase ninguém.

Escolhendo os melhores

Não era um excepcional estrategista, mas sabia, se dessem 50 jogadores para ele, escolher os 11 melhores. Sempre me lembro dele com muito carinho. Há algum tempo escrevi um texto em sua homenagem, intitulado “Ao Professor com Carinho”. Nós o chamávamos assim até com uma certa ironia, mas ele não deixava de ser um professor. E levava tudo numa boa.

A final de 1962

Ele era o paizão do grupo, todo mundo jogava por ele, que sabia fazer um ótimo ambiente. Mas tinha suas vaidades também. Anos depois, em 1962, o Santos foi campeão mundial, ganhando do Benfica em Portugal, e quando o Lula anunciou a escalação do time, que nem tinha sido treinado, ele tirou um dos melhores jogadores do time, o Mengálvio, e colocou o Lima no meio-campo. Mas a surpresa maior foi colocar o Olavo de lateral-direito, sendo que ele era zagueiro-central. Ganhamos de 5 a 2 e o Lula foi muito elogiado pelos jornais da época, mas o Olavo teve muita dificuldade para marcar o Simões, o ponta-esquerda do Benfica que era um excelente jogador. Com o Lima de lateral e Mengálvio de meia, íamos ganhar até de mais.

A partida contra o Milan em 1963

No ano seguinte, disputamos o Mundial com o Milan e aí tínhamos que ganhar no Maracanã, no Rio de Janeiro. Concentramos no estádio, inclusive foi o Santos quem inaugurou a concentração. Gostávamos de jogar no Rio porque em São Paulo não tínhamos torcida, os torcedores dos outros grandes não iam torcer para o Santos. Mas foi lá, na manhã do jogo, que o Dalmo chegou pra mim e disse que eu não ia jogar. Daquela vez ia sobrar pra mim…

A equipe precisava de mim, dos meus chutes e ele ia colocar o Batista, que jogava mais na armação. O Lula estaria preocupado porque o time do Milan era muito forte e ele queria fechar mais o meio. Quando o Dalmo me disse isso, falei: “vou dar um bico na bola e vou embora, vou pegar o primeiro trem”. Bem na hora da decisão com o Milan eu ia ficar de fora para entrar um jogador que nem é ofensivo?

Acabei ficando lá e quando deu 5 horas da tarde – o jogo era às 9¬–, fui chamado para um quarto da concentração. E lá estava o Lula, que me perguntou: “ô, ‘Bomba’, como é que tu está hoje?” Respondi: “estou bem, professor, pode contar comigo”. Acho que o Modesto Roma e o Nicolau Moran tiraram da cabeça dele a asneira que iria fazer, talvez, por conta daquela pontinha de vaidade. Aí joguei e, se eu não jogasse, realmente o resultado seria outro. Virei a partida, marquei o primeiro gol e aproveitei bem o campo molhado com meu chute forte, coisa que o Batista não tinha como aproveitar.

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