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Há 52 anos, o Santos vencia pela primeira vez o Rio-São Paulo

Hoje faz 52 anos que o Santos venceu pela primeira vez uma edição do Torneio Rio-São Paulo, no ano de 1959. Naquela ocasião, a competição teve dez participantes. Além do Peixe, Palmeiras, São Paulo, Corinthians, Portuguesa, Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo e América-RJ disputaram em turno único o título.

A estreia santista foi contra o Botafogo, no Rio de Janeiro, uma vitória por 4 a 2. Na última rodada, outro confronto com um time do Rio valeu a taça. O Alvinegro enfrentou o Vasco, que tinha 12 pontos, um a mais que o Peixe (à época, a vitória valia dois pontos), e precisava da vitória para conseguir um título inédito.

O Vasco tinha o goleiro Barbosa, considerado por muito tempo um dos culpados pela derrota brasileira na Copa de 1950. No vídeo abaixo, pode-se ver que, mesmo aos 38 anos, o arqueiro ainda fazia defesas importantes, mostrando segurança nas bolas aéreas e também quando se deparava diante de artilheiros natos. O Vasco era campeão do Rio-São Paulo e do campeonato estadual de 1958, este um dos mais equilibrados da história. Como três equipes terminaram empatadas, foram precisos dois triangulares para definir o campeão. Os vascaínos chamam o título daquele ano de super-super campeonato.

Mas o Santos também tinha tido um belo ano em 1958, conquistando o título paulista (Pelé foi o artilheiro da competição com incríveis 58 gols) e com três representantes na seleção campeão do mundo daquele ano: o próprio Pelé, Zito e Pepe. Em 1959, o esquadrão santista contava com o veterano Jair Rosa Pinto, que, aos 38 anos, comandava garotos como Coutinho, que só completaria 16 anos pouco menos de um mês depois daquela decisão.

A partida foi disputada no Pacaembu, com um público estimado de 21 mil pagantes. O primeiro tempo terminou 0 a 0 e foi só no segundo que o garoto Coutinho abriu o placar para a equipe peixeira. Pelé faria o segundo e Coutinho fecharia a vitória santista. Era o primeiro Rio-São Paulo conquistado pelo Santos, que é, junto com Corinthians e Palmeiras, o clube que mais vezes levantou a taça, cinco vezes.

E, claro, vale ver o vídeo abaixo:

Ficha técnica

Santos 3 X 0 Vasco Data: 17/05/1959
Local: Pacaembu
Árbitro: Frederico Lopes
Renda: Cr$ 905.695,00
Público estimado: 21.000 pagantes
Santos - Laercio, Getúlio, Mourão, Ramiro, Álvaro, Zito (Fiote), 
Dorval, Jair, Coutinho, Pelé e Pepe
Técnico: Lula
Vasco - Barbosa, Viana, Coronel, Dario, Russo, Laerte, Sabará, 
Robson, Zé Henrique (Cabrita), Rubens e Roberto Peniche (Osvaldo)
Técnico : Gradim
Gols: Coutinho (2) e Pelé

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Arquivado em Década de 50, Santos

Pela primeira vez, Pelé era rei

Dos times que foram rebaixados nos estaduais, um dos que mais chamou a atenção foi o América (RJ). Não à toa. Além de ter sete títulos cariocas, a equipe foi rebaixada pela primeira vez em seus 103 anos de existência. O baixinho Romário, americano confesso, promete ajudar o time do coração para que ele possa voltar à elite do futebol do Rio.

Mas o leitor desse blogue deve estar se perguntando: o que o América tem a ver com o Santos? Na verdade, um time constrói sua história também por conta de seus rivais. E é assim que igualmente se fazem os ídolos. Pois foi justamente por conta de uma partida contra a equipe carioca que Pelé foi chamado pela primeira vez de “Rei”.

O autor da alcunha foi Nelson Rodrigues. Mais tarde, após a Copa de 1958 na Suécia, a imprensa francesa confirmaria o título nobre ao garoto de somente 17 anos. A partida era válida pelo Torneio Rio-São Paulo e aconteceu no Maracanã, em 25 de fevereiro de 1958. O Peixe derrotou a equipe local por 5 a 3, com quatro gols de Pelé. O texto de Rodrigues foi publicado na edição de 8 de março da revista Manchete Esportiva. Leia a íntegra abaixo:

Depois do jogo América x Santos, seria uma crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racilamente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.  

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”. De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.

Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível em qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.

Por que perdemos, na Suíca, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.

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Arquivado em Década de 50