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Araken Patusca, um dos primeiros ídolos

Ele tinha apenas 15 anos e se preparava para assistir ao jogo do clube presidido por seu pai. A partida amistosa era entre o Santos, de Sizino Patusca, e o Jundiaí. Mas, pouco antes do início da peleja, Edgar da Silva Marques, um dos atletas do Alvinegro, passa mal. O treinador Urbano Caldeira, que depois emprestaria seu nome ao lendário estádio da Vila Belmiro, coloca o garoto Araken Patusca para jogar. O Peixe empata em 5 a 5 e o menino faz quatro gols.

Começava ali a saga de Araken. O garoto tinha um bom drible e era muito veloz, tanto que ostentaria mais tarde o título de campeão paulista dos 100 metros com barreiras. Junto com ele, a partir de 1923, ainda surgem outros jovens que fariam história no Peixe e dariam início à outra tradição, a de revelar novos talentos para o futebol. Atletas como Nabor, os irmãos David e Renato Pimenta, além de Omar, Camarão e seu cunhado Siriri.

Estes três últimos, aliás, fariam com ele a mitológica linha dos cem gols, que também contou com Evangelista. Da marca centenária alcançada em 1927, Araken foi responsável por 31 gols em 16 partidas, uma média de quase dois tentos por peleja. Outro dado impressionante é que o meia conseguiu uma marca que só seria batida 37 anos depois: foi às redes sete vezes em um único jogo, na vitória de 12 a 1 contra o então tradicional Ypiranga. Só em 27 de outubro de 1964 Pelé superaria Araken, quando fez oito gols no 11 a 0 contra o Botafogo de Ribeirão Preto, na Vila Belmiro.

Fama internacional

Naquela época não era raro que jogadores fossem emprestados a outros clubes em ocasiões específicas e por curtos períodos. Foi assim que em 1925 o Santos cedeu o craque Araken ao Paulistano, que fez uma excursão para a Europa onde os brasileiros, pela primeira vez, foram chamados de “reis do futebol”. Em 16 de março, o clube estreou no estádio de Bufalo contra a seleção francesa, com Nestor, Clodoaldo e Bartô; Sérgio, Nondas e Abate; Filó, Mário de Andrada, Friedenreich, Araken e Netinho. O time ganhou de 7 a 2 e o resultado foi recebido com assombro no Brasil. Na ronda européia, em dez jogos, o Paulistano perdeu um, para o francês Cette, e teve resultados importantes como a vitória contra Suíça, por 1 a 0, e a goleada sobre Portugal, por 6 a 0. Foi ali que Araken ganhou o apelido de “Le Danger” (O perigo).

Com esse desempenho, e sendo artilheiro do Paulista pelo Alvinegro Praiano em 1927 e vice-campeão paulista por três vezes, em 1927, 1928 e 1929, era de se esperar que Araken fosse para a primeira Copa disputada no mundo, em 1930. E, de fato, seu nome estava incluído na lista enviada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD) à Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea), junto a outros companheiros de time como Feitiço e Athiê Jorge Curi.

Entretanto, a APEA não concordou com o fato da comissão nomeada pela CBD para fazer a convocação, composta pelos cariocas Píndaro de Carvalho, Gilberto de Almeida Rego e Egas de Mendonça, não contar com nenhum paulista. O imbróglio seguiu e a APEA comunicou à CBD que não iria ceder jogadores à seleção. O único paulista que foi ao Uruguai em 1930 foi Araken Patusca, que brigou com o Santos e furou o boicote bandeirante.

A volta

Araken deixou o clube santista depois de jogar entre 1923 e 1929 com as cores preto e branca. Mas voltaria no fim do primeiro turno do Paulista de 1935, depois de jogar no São Paulo da Floresta. Naquele ano, marcou um gol na partida final contra o Corinthians, um 2 a 0 que daria o primeiro título do certame ao Santos Futebol Clube.

Seguiria até 1937 na Vila, tendo disputado 193 jogos pelo Santos, com a incrível marca de 177 gols com a camisa peixeira – uma média de 0,91 gols por jogo -, o que faz dele o oitavo maior artilheiro da história do clube, imediatamente à frente de Pagão e atrás de Edu. Coube ainda a Araken a glória de ter marcado o gol 1.000 do Peixe, o primeiro do 3 a 0 contra o Atlas Flamengo, em 24 de março de 1929.

Araken teve ainda dois irmãos que atuaram pelo Santos: Ary e Ararê Patusca. O primeiro, morto em 1923, foi um dos primeiros atletas brasileiros a fazer sucesso no exterior e, com 103 gols oficiais, é o vigésimo maior artilheiro da história do Alvinegro.

Gratidão

Outro fato interessante na vida de Araken foi a homenagem prestada por ele a seu ex-treinador Urbano Caldeira, em 1938, por ocasião da inauguração do seu busto na Vila Belmiro. O já ex-atleta entregou a medalha de outro conquistada no Paulista de 35 para ser posta no monumento que homenageava Caldeira.

Na carta, Araken dizia: “Urbano ! Giba ! – Hoje, no teu Clube, no teu Estádio, inaugura-se a tua herma, homenagem justa e merecida pela tua obra, criando no esporte santista, paulista e brasileiro e, mesmo, sul – americano, o Campeão da Técnica e da Disciplina.

Teu companheiro desde os mais ingratos aos mais auspiciosos momentos, sou uma prova viva da tuas atividades no seio da família alvi-negra.

Urbano, nasci para o esporte das tuas mãos experientes e sábias; tu fizeste do menino, aos 15 anos, um esforçado entusiasta defensor das côres preto e branca.

Orgulho-me de ter sido nas tuas mãos, na tua vida esportiva, um instrumento de algum proveito, de alguma utilidade.”

Dois santistas que contribuíram para que o clube fosse o que é hoje.

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